quarta-feira, 21 de julho de 2010

a crónica mais bem educada do mundo

Esta crónica é a crónica mais bem-educada do mundo. Dela não ouvirá um caralho sequer nem tão-pouco um filho da puta de um palavrão como muitos cronistas gostam de exibir perante os seus amados leitores.
Esta crónica, pelo contrário, tem classe, tem charme, tem a distinta lata de não falar mal de ninguém, nem daquele urso que foi fazer queixa de mim ao senhor da adega, nem daquele outro que anda a dizer que fui eu quem inventou a lâmpada.

Porque esta crónica é diplomada em boas maneiras, à inglesa, não é como o meu primo António que só diz merda da boca para fora nem como o camelo do Luís que é um atrasado mental.
Não, de jeito nenhum, aqui não encontrará nada de imoral nem prática de maus costumes. Cada frase é pensada ao milímetro, tem um quê de poesia vindo dos canos. O estimado leitor merece o melhor do melhor, pois é para si que dedico a minha vida inteira. Esta crónica antes de ser editada, fez um curso de etiqueta, andou pelo jet7 a aprender como se come à mesa, tomou café com ministros, viu filmes do Noddy e do Rucca. Portanto, não haverá defeito nenhum a apontar. Mas aviso já, o primeiro que levantar um dedo, um dedinho só para fazer queixinhas aqui e acolá, está automaticamente fodido comigo, e saibam desde já que tenho amigos ciganos e alguns são maricões com vontades intrínsecas.

Não me levem a mal esta minha diplomacia, é que, sabem, custou muito aqui chegar, passei as passas do Algarve a pensar que era coisa de se fumar. Mas fodi-me, perdão, lixei-me. Esta crónica é feita com muito vinho mas não chega a dar bebedeira. É uma espécie de amiga dos pobres. Praticou meditação, esteve longas horas à conversa com a madre Teresa de Calcutá a aprender a ser solidária, evitou ouvir discursos políticos para não se deixar influenciar. Logo, por aqui tudo é claro como o vinho, leve como as pedras que carregamos para o monte da felicidade. Nada aqui é contraditório, pode-se arrancar daqui toda a verdade que ainda ficará alguma de sobra para uma boa dúzia de mentirosos. Com certeza que já reparou desde o início que esta crónica tem uma leveza tal que é capaz de fazer o mesmo efeito que o Viagra. Sim, foi educada à nascença, a ter boas companhias, a evitar drogas pesadas, as leves é só em festivais e ressacas só de quinze em quinze dias e vésperas de feriados e aniversários de amigos e bodas. De resto, sempre branquinha como o aço, virgem como eu, como tu.

Esta crónica irá entrar no Guinesse, já que, é a única no mundo que, de princípio até ao fim, não diz um foda-se, sequer. Isto é obra! Pois o respeito é bonito e eu gosto. Além de que, o director do jornal mandava-me já para o sindicato se acaso me pusesse aqui a disparar palavrões a torto e a direito. Também, porque tem de ser atenção às criancinhas, ter ética, disciplina, e não andar cá com palermices. Aliás, é por isso que o país não anda para a frente, muito devido a esses escritores de meia tigela que aproveitam o espaço de um jornal para mandar umas caralhadas, armados em entendidos, quando, no fundo, não percebem é um boi. Sou totalmente contra. Abnego qualquer tipo de discurso difamatório. Aliás, eu próprio seria o primeiro a atirar a primeira pedra. Sou dado ao respeito e, por questões que agora não interessam, jamais deixaria que as minhas filhas lessem uma coisa assim. Esta crónica sim, podem ler, pois toda ela é elegante, não de silhueta, mas na forma com que veste saia e não mostra o rabo. Por que tem educação, tem um pai que impõe regras duras, tem catequese de manhã à tarde e à noite. Que é isso, vagadundagem, não!, crónica minha jamais dormirá fora de casa. Nada de mensagens de telemóvel a partir das 21, ela é aqui, junto à televisão, a bordar, a fazeres os deveres e bolos de chocolate.

As minhas crónicas estão proibidas em sair com as crónicas do José torres que só falam em poligamias e stroganoff, gostam de pintar as unhas e têm a língua afiada para o que der e vier. O Zé que me desculpe mas, amigos amigos, crónicas à parte. As minhas crónicas nunca na vida irão alugar filmes de maiores de dezoito, nunca! Por que as minhas meninas crónicas, felizmente são de todas as mais bem-educadas, não andam no coro mas é como se andassem, não frequentam associações recreativas mas isso é por ordens minhas. Por ter estas crónicas assim, educativas, romanescas, estudadas, há gente que daria o cu por elas. Foi preciso muito para chegar a este ponto, tirar-lhe a pele e o caroço e só aproveitar o bom, portanto, despeço-me com um obrigado e até hoje a oito dias, isto é, se até lá não me apontarem uma crónica de 9 mm à cabeça.

terça-feira, 20 de julho de 2010

O poeta

Só de vê-lo dá dó, o Joselito, sessenta quilos de pura amargura, olhos desidratados que nem sequer dão para chorar uma puta de uma lágrima, uma postura que nem para cabide serve, ginga pelas ruas, vende poemas avulso e, da forma como está crítico o país, alguém quer lá saber de poemas para alguma coisa. Diz que está a mando de Deus, servir os homens com poesia que os farão calar e escutar a voz da voz do senhor. Os putos são ranhosos e atiram-lhe pedras à cabeça até haver uma que a vá rachar. Os senhores das boutiques correm-no dali para fora com um gesto hitleriano. Ele obedece e vai para outro lugar onde possa escrever e tentar vender um poema ou outro. Pelo que sei, a poucos dá a curiosidade de saber o que ele escreve num papel que encontrou no chão. O Joselito é uma paz de alma, come e bebe do que lhe dão, como se fosse um cão de rua a quem se lhe atira os ossos. Neste caso, para sobreviver, tem de ser mais rápido que os cães. E ir de focinho ao destino.
Conheci-o há dias e falei um pouco com ele sobre o dia-a-dia, sobre as suas palavras que, ainda que olhando para mim, ia escrevendo no papel tão magoado quanto ele.

- As pessoas são insensíveis, mano. Ninguém liga puto ao que escrevo
- É, mas tens de ter calma, as coisas boas virão ter contigo, mostra-me aí o que estás a escrever

O dia é uma arte em que ninguém pôs a mão
E a noite é o deus em que iremos desaguar, um dia

- Interessante, meio filosófico. Tens talento, pá!
- Ninguém quer saber de talento para nada, mano, as pessoas só querem é dinheiro para grandes comezainas e orgias com os seus próprios egos.

Falámos durante bons minutos e foi bom saber que ainda existe pessoas que falam das coisas com palavras que se entendam e que, mesmo do avesso, conseguem falar às direitas. Troquei o poema por dois cigarros. Ele preferiu assim. Fiz-me à vida antes que a vida se fizesse a mim, a procurar onde cair vivo, onde o silêncio faz falar. As contas são várias, como são várias as contas que tenho que dar para pagar as contas. Não adianta ser ladrão porque corro pouco e tenho as unhas dos pés encravadas. Deus não me apurou os sentidos. A helena aproveitou-se da minha fraqueza e está a apanhar sol nas Caraíbas com um badameco qualquer, a contar notas de cem e a descascar camarões, que é o que ela sabe melhor fazer. Sou, a bem dizer, um rouxinol sem canto. Os dias assim andam, nesta correnteza mal distribuída, uns têm tudo, outros têm todo o nada. Limpo umas chaminés em part-time e valha-me nosso senhor Jesus Cristo o quanto isso me ajuda para fazer andar a carroça e ter alguma coisita no prato.

Passeio no largo mas quem anda ao largo sou eu. Inventar os dias é muita areia para a minha camioneta. O país quer-nos pequeninos, caladinhos como um biscoito. De chaminés estou por aqui. Sonhar alto é uma ameaça, e já se sabe porquê. Não estou aqui para explicar nada. Aliás, nem sei se estou aqui ou na Noruega lá no meios dos bacalhaus a fazer discursos sobre os reis magos. Cansei de estar cansado e fui à procura imediata do Joselito numa de lhe pedir um poema de fé. Não o encontrei. Ao que parece sonhou com a sua morte e realizou-se. Fiquei tolo porque os sinos não avisaram nada. Mas também não admira, porque, aos pobres, atiram-se para a cova de qualquer maneira, e já está.

A rua já não é a mesma rua. É um lugar sem notícias, sem estômago para adorar. Sentei-me onde o Joselito se sentava e pus-me a escrever umas quaisquer memórias que me vinham à cabeça feitos espadachins. Alguém atirou uma moeda que no chão cantou. Ficou a rodar bastante tempo. A moeda reluzia, parecia de prata mas não era. Era uma moeda que alguém atirou em troca do que estava a escrever. O sol batia na cara do fulano. Ao início parecia um anjo medonho mas depois ficou mais nítido. Era o poeta.


- Então mano, por aqui?
- É verdade, a vida dá muitas voltas. Pensei que tinhas morrido, pois disseram.
- E morri. Agora sou adjunto de Deus.
- Não me faças rir, pá. E eu sou quem, a Gioconda?
- Não mano, tu és o próximo a ir. É que Deus está precisando de poetas lá em cima...

Levantei-me, e fui limpar chaminés.

sábado, 17 de julho de 2010

"é impossível ser feliz sozinho"

Todos temos um sonho, um motivo para sonhar, nem que seja do tamanho do mindinho. Sonhar faz bem à saúde e evita-se remédios. O médico aconselha-me e diz-me, está doente e não tem dinheirinho para remédios?, então vá sonhando! Toda a vida assim, a adiar a própria vida. Eu, por exemplo, sonho em ser burguês, receber o pequeno-almoço na caminha, servido por vinte e sete virgens. O difícil não é o pequeno-almoço na cama nem as vinte e sete mulheres. O difícil é apanhá-las virgens. No entanto, o sonho faz-nos correr, mas devagar, devagarinho, como se equilibrasse-mos o mundo redondo na cabeça. Por isso vou pelas ruas, como que procurando a minha vida dentro de uma garrafa de Coca-Cola, mas claro que preferia que fosse dentro de uma garrafa de aguardente. Pelo menos conserva melhor.

Todos cá no bairro sabem que a Rita trocou-me pela Ângela. Vivem as duas num apartamento em Azeitão, ao quilómetro catorze. Disse-me não haver espaço entre as duas, e eu que até sou magrinho como S. Tomé. Esta modernice trouxe-me pensamentos antigos. Vou na minha com o olhar sobre os pombos-correios, não os pombos que voam, mas aqueles gringos que traficam pó e estão sempre com muita pressa de ir a lado nenhum. Os pássaros deliciam-nos com os seus bailados e as árvores, ah, as árvores, matam-me a fome com as suas laranjas nunca sulfatadas. Há "canos" que não via a Roberta e vê-la agora ali, à janela, à fresca, os peitos empinados, lançando daqueles olhares de chantilly.

A Roberta tem como ganha-pão a reforma do marido que já morreu. Dizem que foi a fazer. Não sei, não vi, logo não posso dizer. Também dizem que o luto a converteu numa mulher frígida, negando todos os prazeres da carne. O que é pena, pois nesta hora estaria disposto a fazer-lhe esquecer o luto com uma ou duas brincadeiras daquelas que eu cá sei.

Só que a Roberta, apesar de ser boa comó milho, a todos dá para trás. Consegue fazer bem a gestão do luto e do prazer. Lembro que em puto havia muitos “pontas-de-lança” que gostariam de a ter comido. Chegou até ser o sonho de muitos e foi tema durante anos quando nós, putos em fase de descoberta, nos juntávamos no adro a contar experiências e a comparar tamanhos. O máximo que consegui foi pôr-lhe a mão no joelho esquerdo.
Mas só o Hilário é que a levou. Sim, o sarapintado, com aquele arzinho de pastel de nata e tal mas que dentro de um Porshe já se sabe que qualquer um faz proezas. Ainda assim, com o sol a meu favor, fui buscar um pouco de latinidade ao fundo do romantismo e mandei-lhe um daqueles assobios a imitar os passarinhos de água que se vendem nas feiras. Não sei como aconteceu mas aconteceu. O assobio fez-lhe despertar a atenção e, a Roberta, lá no recorte da sua janela, lançou sobre mim os seus olhos meios achinesados, causados pelo rímel. Acenou-me. Eu acenei-lhe. Lançou-me um beijo. Eu lancei-lhe dois. Ela sorriu. Eu exibi a cramalheira, todo o piano bocal.

Sem rezar muito, caminhei em direcção à porta de entrada que se encontrava aberta. Em cada passo ia-lhe despindo a roupa mentalmente, prognosticando o bom que é experimentar a qualidade das molas do colchão da cama dela. Espero que as histórias que ela contar sejam rápidas, já que, de cada história que ouvir, só quero retirar aquela página em que mete forrobodó, pensava eu feito manjerico.

Fui subindo os degraus em leveza de bailarino. O coração batia como se despertasse de um coma profunda. O meu olhar texano ganhava expressão qualitativa. Na sala notei que no interior da casa-de-banho havia uma certa agitação. A Roberta falou:

- Querido, aguarda aí dois minutos, estou a lavá-lo, bem lavadinho.

Querido?! Se bem me lembro, da última vez que me chamaram de querido foi um vaivém do caraças. Aguardei então os dois minutos, abrindo asas à imaginação, ou melhor, longas asas. Num olhar sobre a estante de livros apanhei lá pelo meio o do kamassutra e, aproveitando a espera, fui apurando o meu sentido técnico de algumas posições ginasticamente circenses.

Finalmente a Roberta, em robe branquinho como a neve, cabelos ao vento. Atrás dela, um caniche tão lavadinho que parecia que ia à televisão. Por momentos fiquei apático da cintura para baixo.

- Ó Bilinho, chamei-te aqui porque estou com um pé partido e não me convém andar (Olhei para o pé engessado e confirmei). Se fizesses a gentil gentileza em levar o meu Bolinhas a fazer necessidades aqui ao jardim em frente…

O meu silêncio foi um sim. E ela logo meteu a trela no cão e passou-ma. Tive uns pensamentos meios canibalescos mas passaram-me num speed. Desci à rua em direcção ao jardim. Acendi uma ponta de cigarro. Olhava o cão, todo perfumado, escovadinho, ar de quem não se preocupa com nadinha, pensando para comigo coisas infinitas e sem nexo. O cão a dar-me uma coça em felicidade. A Roberta à janela a arejar. Desta vez sorria mais para o estupor do cão do que para mim. Eu a sonhar coisas reais, a tentar entender como é que é possível alguém ser feliz sozinho.

Murmurei:
- Ó Bolinhas,  não me digas que és tu quem… (o cão ladrava fininho). Esquece, deixa para lá.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

história mal contada

Aquele que tira proveito do azar é um sortudo. A bem dizer é um filho da mãe com probabilidades de um dia se tornar santo. Não sei de mim às sextas-feiras à noite. Há quem me veja a beijar o gargalo de uma garrafa de gim, outros apontam-me como uma miragem. O certo é que estou liso e os juros a cada dia ganham mais erecção. Neste país, quem dá um peido sem justa causa, apanha no mínimo dez anos de cadeia. Havia de haver um livro de reclamações quando o sistema nos toma. Somos um pouco tímidos a pensar na palavra liberdade. Os dias são contados com uma máquina de contar notas. A justiça tem miopia. O país tem o fígado lixado. O sonho é onde me ponho a jogar bilhar numa mesa sem buracos. Sou ateu às segundas-feiras e pedagogo às terças. Às quartas ponho-me à distância, às quintas é só para contar aos amigos, às sextas já falei e aos sábados… bem, aos sábados, é dia de ressuscitar.

*


Liguei para a Naida, filha de um bacalhoeiro que em tempos tive uma relação descomprometida, sem grandes quimeras, para que amanhã traga os fios e pulseiras de couro à qual tem uma habilidade única. Aliás, a Naida, onde põe as mãos, faz obra. Mas em tudo!

- Aparece amanhã no largo. Vai haver muito otário. Anda que eu ponho as bejecas.

Não a percebi muito contente pois apenas respondeu, hum hum. O que é de estranhar visto que a Naida, além de ser toda para a frentex, é despachada na língua. Aliás, que me lembra, em vários sentidos.

Apesar de tudo, na manhã seguinte lá apareceu, com a sensação que anda movida a remédios multicores mas lá apareceu, com a sua bijutaria feita na paciência do lar, a três pancadas mas de grande valor artístico, afim de, quiçá, ganharmos uns cobres e tirarmos a barriga de misérias com uns enlatados. Tentei animá-la contando umas piadas sobre padres mas nem assim.
A Naida estava num precipício à qual eu, pelos vistos, não podia dar a mão. Só à custa de dez cigarros, 40 minutos depois, após montada a banquinha com os artefactos de pulseiras, brincos, piercings, colares, é que falou: - O meu velho, pá, apetecia-me matar o meu velho!

Depois foi um desfile de palavrões e de sentimentos altos. Da sua voz, além de raiva, salivava bastante. Por isso dá para entender o tamanho da desconsolação.
Pelo que entendi, o velho andava-lhe a foder a vida, a obrigá-la a vender-se por vinte paus para matar a sede de vinho. Punha-a numa recta de uma estrada secundária até que chegassem clientes, e depois o dinheiro, era, bota para cá!

- Naida, deixa, que se apanho esse cabrão dou-lhe uma puta de uma coça que ele nem vai saber de que terra é!

A Naida lá fez um sorriso pela minha participação no seu descontentamento. Inclusive, disse-me que eu era um gajo porreiro. Que ainda havíamos de ser felizes lado a lado. Por obra da nossa cumplicidade, nesse dia o negócio corria cinco estrelas, os nossos ânimos aqueciam quer com olhares quer com um pouco de vinho de porto. O sol só a nós pertencia. É bom viver ao pé de mar e fazer-lhe cócegas na areia, pensava eu na minha. Ter um destino de fundo azul com umas nuances esbranquiçadas.

Sentado, à velho cigano, observava a Naida, e imaginava-nos aos dois com uma porrada de filhos, a puxar-nos para o pátio, para o baloiço que prometi mas que não me lembrava. Ah, o sonho de haver sonhos. A música do Bob Marley a fazer dançar o milho. E a Naida, enquanto entrelaçava três tiras de couro para fazer uma pulseira, sem nada saber destes pensamentos, a sorrir para mim. Como a dizer sim.

Nesse dia fizemos uma pipa de massa. Ela estava inspirada e de vez em quando soltava uns pregões que, embora fossem meios alucinados, faziam o mesmo efeito de chamariz. Só um inglês levou duas pulseiras e cinco anéis góticos e pagou com uma nota tão grande que me senti pequeno. Acarinhei a nota. Pois era a primeira vez que uma daquelas me passara pelas mãos. Estou mais habituado a chapas.

A cena do velho dela não me saía da cabeça. A minha vontade era de, enfim. Apenas espero que o destino lhe faça estourar os tomates e os miolos. A ele e a gente como ele.
Mas o dia não acabou assim. Deus não sabe fazer contas de cabeça.
Na hora em que arrumávamos as trouxas, o velho dela, como um cacho, a pedir explicações à filha do porquê não estar em casa a fazer a janta, e ainda por cima a insultá-la de cima a baixo.

O tempo parou e, numa fé resvalada, a Naida bateu o pé, respondendo-lhe com a mesma moeda, filho da puta, ordinário, chulo, vai-te embora, pá! O velho estava convencido que o mundo apenas a ele pertencia, e avançou para tentar algo, numa de puxar os colarinhos à paternidade. Aí, xau, como se diz lá na minha terra, foi como quem me acorda com um balde de água fria. Entrei em cena e, num soco só, estendi-o no chão feito cão a esguichar sangue pelo focinho. Bastou um soco bem dado para o velho ficar enroscado em si mesmo e a dizer mal da sua vida.

A Naida aproveitou e cuspiu-lhe em cima com uma vontade que só vista.
Pessoas vinham-se aproximando e foi uma confusão dos diabos. Parecia que a maré ia subir em segundos.
Não sei quantos minutos depois, do nada, apareceram dois bófias à paisana que, sem mas nem meio mas, puseram-me as mãos atrás das costas, algemaram-nas e, com uma fusca apontada à minha cabeça, disseram, anda que destas já não te livras.

Sei que virei-me para a Naida aos gritos: - Faz qualquer coisa, Naida, diz o que esse velho te anda a fazer, diz, Naida!

Mas a Naida estava em choque, a chorar acriançadamente. Seguramente a ganhar coragem para intervir e apontar o dedo ao real bandalho que, na sua manha de velho sabido, chamava-me de comunista, cão, merdento, para se fazer de vítima e sensibilizar os de fora.

Os bófias corpulentos não tiveram fé em porra nenhuma e, à força da força, tentavam enfiar-me para dentro do carro patrulha a todo o custo. Desse por onde desse. E eu a dar luta.

Nesse instante o sol queimava-me as vistas, os sons da multidão que assistia ao aparato estavam dentro da minha cabeça em ecos contínuos, mas a distanciarem-se.
Eu continuava a pontapear o ar, a espumar ligeiramente para a camisola, de costelas magoadas, anestesiado na alma mas ainda assim sentindo que alguém me tocou de leve no cabelo, com um carinho inexplicável. Era a Naida. Sorri. Pois só ela me podia safar e contar tudo à polícia sobre quem é afinal o mau da fita, antes que o caso virasse para tribunal, já que, é sabido que por lá andam uns magistrados mortinhos por dar cabo dos inocentes, com vontade de enrabá-los a sangue frio, para que estes tomem o lugar dos filhinhos do papá que andam para aí a cheirar.

O carro da polícia estava pronto para arrancar, eu sentado no banco de trás, curvado para a frente, respirando forte e com um fio de saliva a sair do canto da boca a denunciar cansaço, quando, a Naida, pálida como tudo, aproximou-se da porta que tinha o vidro meio aberto e, em palavras a perderem a vida, disse-me assim:

- É meu pai, Silver, entende, é meu pai…é meu pai…





terça-feira, 22 de junho de 2010

Jesus vive em mim

A vida muda e, contra o tempo, não há ciência que nos valha.
Temos a cabeça cheia de merdas e, tal com um disco rígido de um computador, é preciso esvaziar. A velhice não é assim tão distante. Quando damos por ela, somos convidados a enfiar-nos dentro de um caixão. Por saber disto, só tenho objectivo em satisfazer-me. E ler. Verdadeiramente não sabemos o que cá fazemos. Andamos práqui a estudar ciências e comportamentos que nos atrasam mais o divertimento. Sorrir é melhor que uma sande de bacon. Gosto de paixões à primeira vista. Sinto que é das coisas mais verdadeiras que anda por aí. Depois tudo se acaba com insultos, mas isso é outra história. Afinal de contas, somos animais insatisfeitos. Gostamos de bons cérebros, pessoas que pensem bastante, mas no fundo gostamos mais é de um bom par de mamas. Gosto de assistir a grandes exibições pornográficas. Faz-me sentir vivo. Não existe presente, tudo é passado, mesmo o pensamento, pois actualiza-se a cada instante. Deixei de ser burro e despedi a Suzzi de casa. Disse-lhe que era por falta de complementaridade. Ela não percebeu. Só percebeu quando falei grosso à vocalista de Death Metal. Estava farto de trabalhar para ela, de ser escravizado até à medula, a mantê-la, a ela e às suas manhas e manhosices a troco de umas quecas superficiais. Esgotou-se-me o bom senso e dei a vez a um tipo duro, a centímetros da explosão. Fiz um contrato com a solidão por ano e meio e andei assim, só e destemido, na procura do meu âmago. Aproveitei esse espaço de ausência de um deus para escrever o meu próximo livro dedicado à quadratura do amor. De uma mulher envolvida em pecados amorosos com poetas. Foram trezentas páginas a imaginar fetiches e diversas formas de amar. Dei o litro pelo não litro. No percurso dos dias ganhei cinquenta e sete depressões mas no fim de tudo saí ileso que nem um ratinho.
Hoje estou livre para amar, mas falta-me aquele movimento rápido de cabeça para ver quem passa pelos meus olhos.

Liguei para a Guida, uma cinquentona, de banhas transbordantes mas com bom presunto que tira qualquer um do sério, pelo que, para amá-la, é necessário fazer um seguro de ossos. Da última vez, vim de casa dela com a espinha num oito e agradecendo a deus não ter aparecido o jamaicano que com ela tinha ou tem uns lances furtivos. Um tipo bem abonado, karateca e motorista de traillers internacionais. Já estão a imaginar.

Ainda assim arrisquei e fomos tomar qualquer coisa à baixa. Falei-lhe do livro e, ao saber do tema, deu um sorriso convidativo que, diga-se de passagem, deu-me novas inspirações. Palavra puxa palavra, cerveja puxa cerveja, hora e meia depois, estávamos meios pifos, a trengar como pardais ao ninho. A Guida fala muito alto e o seu discurso é pouco bíblico. Falou-me das suas relações frustradas, das nódoas sentimentais, da cabeça rachada quando se opunha, dos gritos de socorro que ninguém escuta, etc. Ao que esta conversa deu azo para eu chorar. Pois com os copos fico um sensivelzinho de meia tigela, feito pudim. Abraçou-me com os seus braços fortes e senti que ali podia nascer qualquer coisa de positivo. Quem sabe uma luz. Apesar de ainda ser dia, pagamos a conta a meias e fomos, para não variar, para a casa dela. Logo à entrada, na parede do corredor, uma fotografia ampliada e emoldurada, do tal, a olhar de frente, como que supervisionasse tudo e todos. Assusta olhá-lo, ver aquela cicatriz que vai da cara ao pescoço que parece um pequeno mapa de estradas. Ter a imagem dele na cabeça não foi bom, baixou-me os níveis de testerona. Tirou os sapatos, desnudou-se e deitou-se no sofá a imitar uma leoa amestrada. Reparei aí que a Guida tinha uma tatuagem no fundo das costas que dizia: Jesus vive em mim. A televisão contava o caso do violador de telheiras. Lá fora uma chuva de repente. O jamaicano a mirar com os seus olhos fixos na fotografia. A Guida a pedi-las. Eu de repente, sem assunto. Com uma frieza infindável pelos ossos. O desassossego a ganhar volume.

Teve de ser, apanhei-a por trás e comi-a em tempo recorde (59 seg.), depois disso, arranjei uma desculpa esfarrapada e aprontei-me para bulir dali para fora antes que o azar me falasse ao ouvido. Mesmo na altura em que abro a porta para a rua, eis que sem ninguém contar, pois era suposto estar a atravessar a França, o jamaicano, perturbadíssimo, a claustrofobicar-se, a interrogar-se mentalmente a minha presença ali. A Guida apercebeu-se e, de lá de dentro, gritou:

- É o homem da luz, veio fazer a contagem ao contador!

O homem de pele tostada olhou-me de cima abaixo com gravidade, a tentar ser telepático, a querer provocar briga com o olhar, contraindo os músculos do pescoço, fazendo-os estalar, para intimidação, a deixar o mínimo espaço entre a parede e a porta.

Fiz de conta que não era nada comigo e desopilei com a ânsia de engolir um pouco de nicotina. Afinal de contas o mundo não pára nem dá a mínima chance para lhe amarrarmos nas costas e fazê-lo atrasar. Ele anda sempre à nossa frente e, uma coisa é certa, um segundo faz toda a diferença. E outra coisa: aquela tatuagem fez mudar a minha vida!

Enfim, o fim

Só não prego o evangelho pelas portas por falta de tempo e honestidade. Cada um deve comer pelas suas próprias mãos e ninguém tem nada que ir levar deste género alimentício à boca dos outros. Além de que, tenho mau feitio. Sou uma mistura de raiva com descontentamento.
Os caminhos foram feitos para caminhar, portanto, cada um que avance para o lado que quiser. Estou farto de que me venham com ideologias todo-o-terreno.

Só me deixo enganar pela verdade. A existência para mim é um pau de quatro bicos. Comer, beber, foder e depois escrever um poema é o meu lema. Acreditar é tornar-nos loucos e impacientes. Esperamos que a montanha cresça na mão de uma criança.
A Irene foi-se. Foi bom enquanto durou. Apaixonou-se por um cliente que lhe dava boas garantias futuras. E foi-se. E eu de novo à estaca zero. Aprecio os recomeços. Tenho a sensação de que a obscuridade se torna mais visível. Segundo a minha data de nascimento e hora, a astrologia diz tratar-se de uma ruindade.

Leio livros porque não há carne no frigorífico. Engana-se a fome e a porra da solidão. Há dias em que as noites são bem melhores. A sensação que tenho é que, se me cortarem as pernas, ainda assim eu corro, eu correrei para lá do que sou. As minhas qualidades são inqualificáveis.

Falo de mim porque à minha volta não existe ninguém. Eu só, neste quarto que fede a silêncio e sémen. Mesmo cá em baixo sinto-me no topo do mundo. A realidade é um sonho. E o sonho é uma história mal contada. Acredito em sereias mas elas não acreditam em mim. É um dilema, este, o de acreditar em livros. Para felicidade tenho o wisky barato. Para tristeza basta-me a sede constante. Meto ambas num saco e tiro à sorte. Hoje calhou-me a felicidade. Estou safo só de pensar nessa possibilidade. Ter costas direitas não significa que seja gente séria. Ouvi dizer que sou surdo e mudo. É preciso ser-se necessário.

Do que falo só há provas no que escrevo.
Sim e não são talvez.
Coragem é pensar.
Pensar é fazer florir rosas brancas num tabuleiro de xadrez.
A guerra começa onde termina.
Não apostes tudo no sim. Deixa fluir o sol. Eu amo porque conheço-lhe a dor. Daqui ali faz-se um filho.
À parte de tudo somos nada. À parte do nada somos outro tanto.
Tenho deus algures no coração do coração.
Tecto e chão são os meus melhores amigos. Sou triste e isso alegra-me. A minha posição no mundo é de guarda-redes. Só não vendo ideias porque não as tenho. Sou um presumível assassino da morte. Matei a morte.

Não pensar é ouvir-se. Fui Cristo e buda e não me lembro de mais nada e, a sensação que tenho é que ainda dói. Na fúria do mar alto o pensamento tem altos e baixos. Atrás de mim estou eu outra vez. Se o amor fosse digital, amaríamos em série? Felicidade é quando duas moscas batem palmas. Olhos nas orelhas não falta quem. Se a mentira desse subsídios, estávamos podres de ricos.

Juro que além da verdade só digo mentiras. Encontro-me perdido. Achei-me para me perder outra vez. A base de tudo é quem está lá em cima. Nada vezes nada é igual a política. O cigano rouba porque tem vergonha de pedir.
O homem é como a serpente, fabrica o seu próprio veneno. Grande é aquele que tem noção que há muito para crescer. A vida tem encontros imediatos com a morte.

Apesar de tudo foi só uma marca no joelho. Quem tem ferros sabe a tábua que isso é.
Deus alimenta-se de almas, logo, é guloso. No estreito de mim, alarga-se a dúvida. Se, só morre quem está vivo, então, só vive quem está morto. Alguém também é ninguém. Ninguém também é gente. Por vias das dúvidas estamos certos. O bicho come a carne do morto porque não há salgadinhos. É estranho eu não me estranhar.

É azul o verde pranto. A mentira é como a loiça, parte-se, e não foi ninguém. Sonha que ainda a luz não vem abaixo. A vida inteira, a morte incompleta. O que envelhece é a luz. O bom seria partir para o regresso.
Às vezes acontece não haver acontecimentos. O exacto nunca soube como nasceu. O cavalo corre, não pela sua felicidade, mas sim pela sua ignorância. Sejamos menos cavalos. O silêncio é o melhor remédio para a idiotice.

A Irene foi-se embora. Podíamos ter sido felizes. Mas faltava o melhor: a poesia.
Estamos perto de chegar a lado nenhum. Roubar o pão não significa matar a fome. O amor é doce mas sem sexo torna-se amargo. Se não tens para onde ir, desagua num livro. Eu sempre soube que não sabia. Ama primeiro num segundo. Dinheirinho faz dinheiro, e sangue faz sangue.
No circo não fui mais que um simples homem-bala. Em tempos pertenci a um gang de poetas mal inspirados. Agora faço dança de salão numa folha branca. Na verdade, em termos legais e logísticos, estou em ponto-morto. Se a vida tivesse pedais eu podia ir mais longe. Enfim, o fim.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

o amor ao cavalo nº7

Tínhamos planos, a quantidade exacta de filhos a ter, data marcada e tudo para o casório, até ao dia, ao maldito dia em que lhe saiu um segundo prémio na lotaria e, assim que cheguei a casa depois de oito horas a descarregar grades de bebidas da firma Irmãos Torres, a Irene fez o obséquio de me pôr porta fora com nadinha.
Inventou uma data de desculpas sobre o amor de não sei das quantas, que os sentimentos mudam, etc, que estava farta de cheirar o meu suor após uma boa queca, que a felicidade ainda há-de parir um osso, etc. Moral da história: agora sou um pássaro livre que poisa de ramo em ramo.
Ando pela noite à procura de dias melhores. Faço umas apostas em cavalos de corrida mas perco o que ganho mais o que aposto. E saio todo lixado e rouco por chamar grande filho da grande puta ao jockey.

Tenho fome da vida e sede de morte. Deixei de confiar em mulheres. Ao menos as prostitutas, fazem o serviço, paga-se e pronto, desanuviamos, o sangue anima e a nossa mente ganha nova felicidade. Por uns dias as emoções ficam restabelecidas. É certo. Mas isto não é vida.
Estar sempre a investir para ter sexo não é vida para ninguém, muito menos para um tipo como eu que sonha por estes dias encontrar a sua alma gémea, quem sabe, a comprar uma revista num quiosque (vi num filme), deixá-la cair, e eu, cupidamente, a ser mais rápido do que ela, apanhar a revista do chão e passar-lha para as mãos macias. Ela agradece-me nos olhos, e ali, sem que o destino ditasse, nasce uma música perfeita que dias depois nos fará dançar na minha cama de solteiro.
Sonhos, quem não os tem? Até lá vou intercalando com bebedeira sim, ressaca não, apostando no cavalo nº7. Nos meses seguintes, precisei de um bocado de arte para sobreviver. Desde a andar na apanha do morango, passando por tosquiador de ovelhas até a vendedor de óleo de fígado de bacalhau em restaurantes.
Não é para me gabar mas até tinha uma enorme capacidade de persuasão. Toda a gente sabe que em alturas de necessidade até vendemos frasquinhos de bosta, se for preciso.

Mas a sorte, apesar de invisível, é algo estimável. E eu sabia, pá, eu sabia que tarde ou cedo a sorte viria. No beco nº 7 Conheci uma cantora de ópera que me enchia as medidas. Pesava cem quilos, mas isso que importa quando amor não olha a banhas. A vantagem de andar com ela é que ninguém se fazia ao piso. Podia estar seguro que, dela, só lhe queriam ouvir cantar.

A Paloma tinha 3 anos de conservatório e, de quando em vez, fazia umas actuações pelas terrinhas do interior norte, acompanhada por um gira-discos. Ela, lá com os seus gritos histéricos, sempre ganhava algum dinheiro para encher o frigorifico.

Durante um certo tempo andei a beber do bom e a comer comida decente em vez daquela pasta de atum a matar-me o fígado aos bocados. Fornicávamos muito. A Paloma lá nisso era insaciável. Talvez seja este o mistério das gordas.

Cheguei a acompanhá-la em muitas actuações e a dar-lhe moral para que não ligasse a bocas quando alguém lhe elogiava os cem quilos de gordura consistente. Éramos felizes, muito felizes. Fazíamos caminhadas e riamo-nos muitos.

A dado momento meteu na cabeça que queria emagracer, e começou a fazer dietas milagrosas e a querer sempre mais e mais sexo, não com objectivo do prazer, mas porque o médico aconselhou-a como método eficaz de emagrecimento.
Ela, a cada dia emagrecia e eu, cada vez mais a ficar um pau de virar tripas.
Ela disse adeus aos fritos e hambúrgueres e eu disse adeus às pataniscas. Aos poucos e poucos deixava as roupas XXXL e já ousava vestir coisinhas mais leves e provocantes.
O certo é que a Paloma estava a ficar nos trinques, o seu rosto brilhava a milhas e a sua silhueta dava vontade de lhe dar uma silhuetada com os dentes. Ganhou tanto gosto em si, tanto gosto, que me convidou a saltar fora do cavalo, dizendo-me em tom si bemol gregoriano que já não dava mais, que a vida é assim, dá as suas voltas e, e, e, foda-se!, não tive outro remédio senão fazer-me à vida em direcção à rua da amargura, sem nada a declarar a não ser emborrachar-me sete dias e sete noites. Longe do meu record, mas pronto.

Foi precisamente na última noite que conheci a Belmira, uma musa com todos os predicados para o meu sujeito nominal. Uma autêntica febra! Amámo-nos logo à primeira. Cruzámos peles e arrepios e eu fazia grandes exortações poéticas nos seus mamilos. Só com um senão: um acidente deixou-a temporáriamente muda. Foi do susto. O bem é que comia calada, ao contrário da Paloma que fazia um cagaçal do outro mundo ao ponto de os vizinhos certa vez, duas da manhã, pensaram que eu estava a matá-la. Mas entre mim e a Belmira, os dias são passados assim: muita cumplicidade e o amor é o melhor remédio para combater o frio e aquecer os pezinhos.

O problema é que daqui a 7 dias vai fazer nova operação às cordas vocais que, segundo os médicos, recuperará a fala por completo.
A família dela está contente. Já eu, antes de levar o nó na espinha, vou aproveitando os dias até lá, a amá-la perdidamente no sofá, na cama, no lavatório, na escrivaninha, pois quando ela vier curada, a falar, o certo é que,  tal como as outras, a Belmira, mais coisa menos coisa, vai pôr quês no amor, reticências no futuro, aspas no desejo, camadas de interrogações na felicidade, etecétera e tal.  
OK. O bom do azar é que, se isso acontecer, tenho a fezada que vai ser desta que o cavalo nº 7 vai ganhar!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Por-tu-gal, Por-tu-gal

No mínimo daremos cinco zero ao Brasil, trazemos a taça embora com o melhor champanhe lá dentro e ainda temos tempo de importar uns pretos para vir trabalhar nas obras. Quando joga a selecção, joga o país inteiro, homens, mulheres, crianças, velhos acamados, atrasados mentais, adiantados mentais, histéricos, casadas, viúvas, virgens, desvirginadas, pobres, ricos, remediados, drogados, pessoas de bem, pulhas, catrapulhas, padres, protozoários, enfim, Portugal inteiro de olhos postos nas jogadas, no esférico, nos craques, no pano verde e vermelho da bandeira nacional.



Um mês e muitos dias a sofrer como dementes, a roer as unhas, a afiar a língua com Super Bocks, Sagres também, a gritar golo quando não é, a tapar os olhos quando o adversário se aproxima da nossa baliza, com suores na testa, tremeliques nas pernas, comichão nas orelhas, febre nos perlimpimpins.

Neste período estamos muito ocupados em discutir pressentimentos, lances, a chamar cabrão ao árbitro, a sonhar com a glória, não a Glória que mora lá mais adiante, mas a glória do nobre povo que sentimos na voz quando gritamos:
Por-tu-gal, Por-tu-gal!

A nossa moral lá em cima, os problemas da nação em stand by, a aguentar os cavalos, os larápios com o caminho livre. Podem roubar à vontade, mas não assinalem faltas mal assinaladas! Pode um automóvel vir por aí distraído, feito animal mítico e matar meia dúzia, mas por favor, não lesionem o Cristiano Ronaldo. Esse faz falta para o poster.

Podem fazer trinta por uma linha, levantar a cara do juro, meter droguinha nas cadeias, arrombar cofres-fortes, dar o ouro ao bandido, pôr de luto os salários, que nós estamos aqui para gritar: Por-tu-gal, Por-tu-gal.

Pode até o fado se tornar rock alternativo, as putas se enfiarem nas matas densas, os pedófilos fazerem estudos de mercado, os velhos sonharem “rente aos cemitérios”, ou as sempre e mesmas sardinhas cair-nos no prato, porque nós, somos cools, e gritamos: Por-tu-gal, Por-tu-gal!

Enquanto um cego pede licença para ver, o pintor pinta um quadro a sangue fresco, os parafusos sem saberem em que porca se hão-de meter, a realidade perdendo a rolha, nós gritamos: Por-tu-gal, Por-tu-gal! Enquanto nos dão lições de moral, cursos de novos oportunistas, sonhos paquistaneses, felicidade em supositórios, portas que se abrem para outras portas fechadas, nós gritamos, Por-tu-gal, Por-tu-gal.

Por outro lado, imaginem só o bom que é, durante o mundial de futebol, cagar no pacto de estabilidade económica, querer lá saber se o Sócrates está metido nisto e naquilo e naqueloutro e naquele mais outro que vai surgir. O importante é que não nos lixem com horas extras porque os jogos é às sete e, a partir das seis começamos a festejar, a aquecer os motores da alma, a pintar a cara de vermelho e verde, a vestir a camisola do euro 2004 e gritar: olé olé olé olé, Portugal, é que é.
Triste notícia não foi saber que as Scuts vão levar com portagens em cima, foi saber que o Nani não vai jogar!
Venham daí os adversários, um por um que nós damos cabos deles, nem que seja com a lógica da batata, porque nós queremos é gritar gooolo, queremos ver o CR7 a levantar a camisola para mostrar os abdominais de aço e as garinas da aldeia grande a apanharem uma moca de entusiasmo e a fliparem com as tatuagens do Raúl Meireles.

I got a feeling que, se formos campeões, o Bocage virá à terra compor um soneto escandaloso e o Carlos Queirós será mais aclamado que o Papa Bento XVI.

Na verdade, pá, nós já ganhamos. Pelo menos durante mês e meio iremos cantar, gritar, pinchar, mijar nas calças de tanta emoção, rir, esquecer que temos a querida EDP, a companhia das águas, as tributações, o IVA, todos eles, simpaticamente a darem-nos mais quinze dias para pagarmos antes de levarmos no coiro.

Um aparte: Por que é que certos políticos nunca podiam ser jogadores de futebol? Simples, o Cavaco, porque não passa bola a ninguém. O Paulo Portas, porque mesmo sem golo iria querer festejá-lo saltando para cima dos colegas com sapatadinhas no cu. O Manuel alegre, por não saber qual em que ala se há-de enfiar. O Sócrates, iria criar suspeitas por querer ficar sempre no banco. O Miguel portas, fumaria a relva toda. O Louçã, questionaria se a bola é uma bola ou se é um barco a remos. O Jerónimo, apenas tem a táctica de: quando a direita cansa, a esquerda avança. A Manuela F. Leite? Bem essa, só por causa do menisco!

Deixemo-nos de tretas e vamos mas é lá pegar na vuvuzela e apoiar a selecção, mas cuidado, nada de pedir o instrumento emprestado, pois agora que isto está tudo mudado, sabe-se que há para aí uns meninos que a tocam de duas maneiras.
Por-tu-gal, por-tu-gal!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Vai dar banho ao cão

09:20 no relógio. Chegou a vez de a estação dar tangerinas. A brisa quente espalhada pelas ruas e campos. Os rios de águas paradas, sem canseira nenhuma. Como eu, Jorge da Conceição, ex-caçador de patos bravos, militante de uma fé que há-de surgir por aí. Pequeno-almoço na padaria da Céu. O costume: café com pão. A vida não dá para mais. A morte a cada dia ganha mais valor. A entrevista no centro de emprego é às dez e meia. Faz anos que não sei o que é o despertar com passarinhos irritantes e altruístas. Gabam-se por saberem voar, enquanto nós, na terra, inventando asas de todos as maneiras e feitios.

Vou pela rua, não sei qual, uma rua é uma rua, não importa o comprimento ou a largura. Uma rua é um 3D do quotidiano. Nela tudo é vivo, feita de vozes que vêm das casas, e de miúdos que largam a bola e mijam contra a parede.
Penso que daqui a nada estarei de frente a uma mulher, bonita com certeza, pois o governo tem ordens claras: em gabinete do estado só trabalha mulher bonita! É uma vantagem, esta, de ter a oportunidade em estar com uma mulher bonita, porventura sensual e, se a inspiração me bater, entrar em diálogos sobre superstições até chegar a vias de factos.
Entrei na repartição e, na sala de espera, as poucas pessoas que lá estavam, olharam-me, talvez o meu corte de cabelo não seja dos mais modernos, ou, talvez os meus sapatos branquinhos de verniz estalado cause impacto a quem não conheça as modas de um poeta.
Tirei o ticket e aguardei a minha vez sentado ao lado de uma jovem morena que no anelar da mão esquerda apenas conserva a marca do anel. Peguei numa revista à sorte. Folheava-a só para fingir que lia. O meu pescoço tem o hábito de rodar sempre que alguém entra. É um vício, fora os outros que vou largando e somando.
De quando em vez, uma vozinha meia ruidosa por um altifalantezinho no cimo do canto de uma parede vai chamando um por um. Tenho a impressão que irei causar boas impressões. O meu melhor fato Armandi vai dar que falar. A espera faz criar bichos no pensamento.
Trinta minutos sentado sem fazer niente, é pior que ler uma página do Eu, Carolina. Está bem que preciso de um emprego, mas, será que o emprego precisa de mim? A contradição cabe em mim como uma luva.

Um dia ainda hei-de ser mestre em anedotas e adivinhas. Tenho praticado muito quando fujo à regra três. A morena continua com a sua pose desportiva. Reconheço-lhe talento para o yoga. Tão parada nos movimentos que me faz doer os alecrins. Se lhe perguntar o seu nome, por certo fará a gentileza de dar com a sua mala pesada na minha careca Trostkiniana.

É um sei lá bem, este dia. De repente, a imperceptível voz no altifalante: senhor Conceição! Sem ter ensaiado, levantei-me em sincronia olímpica com a morena.
A desconfiança um do outro, em águas de bacalhau. Dirigimo-nos para lá, os dois, quase lado a lado, em direcção à porta que se abriu a modos de se poder ver que no seu interior, na secretária, está uma mulher, que pode muito bem ser a dos meus sonhos. Cabelos lisos e negros a pender-lhe sobre os ombros semi-nus, olhos perfeitamente desenhados, quase me cegam de tanta luz vindo de dentro.
Sem falar do corpinho, hmm, estou mortinho por contar aos amigos! Era capaz de perder todo o tempo a contemplá-la, se bem que o tempo para mim seja algo eclético. A morena, como se tivesse esperado uma vida por este momento, antecipou-se e passou-me à frente, deixando-me para segundo plano. Ao estar perto da mulher sentada à secretária, falou:

- Temos de nos conciliar, amor, a minha vida sem ti não faz sentido nenhum!

O certo é que, se eu não tivesse lavado bem as orelhas pela manhã, juraria que tinha ouvido coisas a mais. E continuavam a falar, cuja palavra amor, ou no início ou no fim, entrava em todas as frases.
Quis interferir para, sei lá, assim de repente, uma coisa a três, se houvesse disponibilidade, é claro. Mas não me pareceu. A coisa era séria. Tão séria que, num tom à frei Franciscano, meti bedelho na conversa:

- Vá lá, aceita a morena de volta!

Maldita hora que abri a boca. Os olhares de ambas, vocês haviam de ver, quatro olhos enfurecidos, a propor destruição. Se tivessem ali pertinho um taco de baseball…

- Olhe, mas caso não saiba, nós vamo-nos casar pela lei n.º 9/2010, aprovada a 11 de Fevereiro de 2010 e promulgada pelo PR a 17 de Maio. Está pensando em quê, seu anormal, queria ser o padrinho, era?

Fiquei calado, a pensar cá com os meus botões, estas tipas ficariam melhor entregues aos meus bíceps fortalecidos, mas, pronto, teve de ser, dei meia volta ao corpo e dirigi-me à porta de saída, pois sei que lá fora há um sol à minha espera. Elas ficaram lá, fazendo as pazes com uns amassos e uns beijinhos, prestando um belíssimo serviço público, diga-se, mas, antes de ir dar banho ao cão, coloquei a seguinte questão:

- Estive dois anos a descontar em Espanha, se eu fosse vosso padrinho, será que daria para ter as mesmas regalias de um padrinho de lá?

Não responderam. Ou não atingiram o ponto G da pergunta. Bem, nem tudo foi em vão. Pelo menos fiquei a saber mais de leis.


sábado, 15 de maio de 2010

a mim não me enganas tu

- Bom dia, venho falar com Deus. Esse mesmo, o Todo-poderoso. Será possível que Ele dê uma chegadinha aqui à recepção. Diga a Ele que é o Bilinho. Sim, o Bilinho, o homem que cumpriu mil e uma promessas, beneficências arrodos, dei pacotes de arroz à saída do super mercado para ser entregue lá para os lados de Angola e, credo, assim que soube que o meu despacho não foi autorizado, aqui estou para apresentar queixa.

- Mas...

- Qual mas! Eu, que toda a vida cumpri os meus deveres, sorri para que outras bocas pudessem sorrir, dei pão a quem não tinha pão, agora é isto? Negam-me a entrada? Chame já Deus antes que arranje aqui um 31 do caraças! Você não me conhece. Julgará que, lá por ter esta ligeira miopia ou a falha de um dedo na mão direita, que tenho medo de armar as minhas tropas e invadir este sossego que me nega? Está a ouvir? Vá lá e diga a Ele que se levante da poltrona, que o Bilinho está aqui com uma fúria do outro mundo, capaz de ser capaz de borratar o azul ao azul do céu.

- Vamos lá com calma.

Calma?! Acha que estou chateado, aborrecido, importunado? Não, desculpe, o senhor está tontamente enganado, sou de paz e em paz quero perpetuar neste movimento. Não mude de assunto. É urgente saber por a + b por que é que o processo respeitante à minha doce eternidade foi recusado. Preguei o amor, criei raízes bem fundas para que a verdade se erguesse ao mais alto de nós, e em troca dão-me incertezas? Acha isto justo? Está a ouvir, ó porteiro!

- Ó homem de Deus! Aqui é o inferno! – Falou o porteiro que só agora teve a oportunidade de o interromper.

Ao Bilinho, a palavra inferno fez-lhe uma náusea tão grande que engoliu um cuspo bem seco, deixando-lhe a língua meia travada onde o mas, mas, mas, era a única expressão que tinha para dizer. Desfez o seu equívoco com um óóó e, o porteiro, aceitou isso como um pedido de desculpas mas, antes que o recém-chegado apanhasse um susto de morte-morte, rodou o manípulo da porta, abriu-a escancaradamente para que pudesse ver com os seus dois olhos amargurados de que o inferno não é nada daquilo que falam lá na terra. Longos riachos onde o silêncio empresta a sua serenidade. Pássaros visionários sobre um céu limpo e sedoso. Não havia nada de fogo nem de pessoas a arder como nos relatos. O amor era uma canção em cada rua. As pessoas abraçavam-se com tamanha felicidade e os campos floriam em cada pensamento. Não havia fome nem desgraças.

O espanto, por ser espantoso, foi digno de o Bilinho dar duas voltas ao pescoço e dali escutar-se uns pequenos estalidos vindo dos ossos, pois perante aquilo que observava, se o inferno é assim, ó pá, que se lixe o paraíso! Até porque, para lá da porta estavam também mulheres esbeltas e com vontades de. Mulheres virgens, nunca sonhadas, jamais olhadas ou sequer beijadas. Tudo à disposição. Incluindo grandes rocks e guitarradas.


O porteiro topou a feliz admiração do crente que, sem que dissesse nada, era notório que o seu discurso iria andar para trás. Não falava nada. Tossia baixinho para dar a entender o seu entusiasmo. Mas que entusiasmo! A sua vontade era idêntica ou semelhante a de um boi de cobrição a querer saltar a cerca.


Por achar que tinha dado antena demais ao aparato, foi numa ironia ironizada que se virou para o dito cujo e perguntou:


- Entra, ou prefere a pasmaceira do paraíso?


Após um nico de silêncio e de já ter passado a língua nas beiças para aparo da água na boca, o homem, que queria o encontro imediato com Deus, deixou de querer e, num aprumo rápido, ajeitou o cabelo com um pouco de cuspo, fez estalar os nós dos dedos, para depois, mais rápido que o Lucky Luke, entrar num tirinho e, mal se viu lá dentro, agarrou-se logo a duas delas com perícia, sem perícia, sem técnicas nem malabarismos, e pimba, catrapimba.
Adormeceu na serenidade dos anjos, embora por ali não existissem, sonhando e rogando com passarinhos e tudo mais.

Na manhã seguinte, ainda a meio ensonado, sentiu alguém a apalpar-lhe as cascas. Por estar no escuro das trevas, procurou de imediato o interruptor para ligar a luz e avaliar a situação com os seus próprios olhos e, assim que viu uma cambada de matulões a querer coisas no vá de retro, gritou por socooorro, tirem-me daqui! O porteiro desta vez abriu um rectangulozinho que tinha no centro da porta. O Bilinho ficou incrédulo ao ver que toda a paisagem em sua volta estava mudada, pois onde antes havia pássaros agora havia corvos esfomeados, as mulheres eram gringos, gajos enormes com ares de quem gostam de enrabar, lixo por todo o lado. Perguntou-lhe no meio de uma aflição: o que é que é isto, meu irmão?

- Ó pá, é que ontem foi 1 de Abril, dia dos enganos cá no inferno, hoje, infelizmente, voltou tudo à normalidade! – Respondeu o porteiro, com aquela vozinha típica de “a mim não me enganas tu”.





terça-feira, 11 de maio de 2010

só me saem velhas!

É uma contradição: a peixeira é um bom bife. Se não fosse ela o meu jejum era perpetuado.
Desde que reatamos que já lá vão mais de duas dúzias de… noites a decifrar o olhar maluco da lua.
A coisa parece ficar séria.
Ela está com ideias em me levar ao altar. Eu já lhe disse que sofro de vertigens e que, deus está de olho em mim desde que a Andreia se pôs a mexer quando soube que afinal os meus poemas tinham outros destinatários.
Mas a vida soube-me dizer: vai em frente, meu irmão! A Licas a bem dizer tirou-me da merda, trouxe-me de novo ao romantismo. Eu já não sabia o que era fazer amor à sombra da bananeira, sem ter que me preocupar nadinha, nem sequer em preencher a folha do IRS. Ela a fazer tudinho, inclusive a merenda.
Mas que ninguém se deixe ir em ilusões, pois a qualquer momento pode vir por aí um vento que nos muda a direcção numa velocidade de galgo de competição.
A Licas tem o negócio que herdou da mãe, que coitada, está em casa com a clavícula num oito. Não se pode mexer, nem num pentelho, sequer. A primeira vez que fui lá a casa, a dona Miquinhas gostou de mim e teve a gentileza de dizer que era um bom caralho.
Depois riu-se com aqueles dentes que raramente vêem pasta dos dentes. Mas é boa criatura, a velha, tanto que até me passou as chaves da carrinha para ser eu próprio o motorista.

E os dias foram assim: eu e a Licas a cobrir várias freguesias na venda de peixe. Pescada, salmão, fanecas, robalos, sardinhas, carapaus, etc, enfim, aviávamos de tudo que vinha do mar.
As notícias de que o país estava-se a afundar já não me diziam respeito, afinal de contas a Licas tinha e tem umas boas bóias.
E, de vez em quando, lá tinha eu de fingir que naufragava. A vida ia boa, com a mesa cheia de comida e vinho até dar com pau. Só quando a Dona Miquinhas me começou a tratar por genro é que as coisas começaram a ganhar um paladar diferente, a sentir um aperto de ambos os lados.
Da Licas e da mãe dela, que queriam à força que a boda se fizesse nos entretantos. Fui adiando decisões, embora participando naquela treta de aconselhamentos matrimoniais, que me davam cá uma neura nos perlimpimpins.

Por causa das minhas indecisões o meu assobio começou a não se fazer cantar. Eu até gostava da Licas, principalmente entre as 21 e as 23 horas, que era quando estávamos agarradinhos, a ouvir Wager, sem aquele cheiro a mexilhão mas, os meus quarenta e três anos ainda me diziam que ainda é cedo para me deitar todas as noites com a mesma. Fui buscar coragem não sei onde e, depois de uma bruta mariscada lá na casa dela, tive de lhe dizer: Licas, as coisas não são bem assim!
A reacção dela foi imediata: levei com um lagostim na moleirinha que me lixei por quinze dias úteis. Antes isso do que levar um pontapé nos entrecostos. Lá me aguentei os dias seguintes sem comer o bacalhauzinho a que estava já habituado.

E fiz-me a outros negócios de carnes.
Na minha cabeça só tinha a voz da velha, quando à mesa me dizia: ai de ti que faças mal à minha menina! Eu achava engraçado ela chamar de menina a uma mulher de noventa e tais quilos, fora aqueles que eu ajudei a derreter, claro.
Cheguei a ter pesadelos e a acordar de noite, a imaginar a velha de camisa de dormir, sem nada por debaixo, a caminhar na minha direcção, com aquele sorriso de levar um lutador de sumo ao tapete em fracções de segundos.

Quais comprimidos, quais livros do José Ilídio Torres para adormecer. Nicles! Sentia-me possuído por aquela velha que, quase de certeza me rogou uma praga bem rogada.
Tentei um médico mas não adiantou. O caso não era clínico, era sim psicótico. Pois em tudo que olhava só via a puta da velha, a sorrir. Tinha de tirar esta imagem da cabeça.
Experimentei várias bruxas, inclusive a Paulina que me enfeitiçou durante o verão, mas não deu em nada. A velha, a velha, a velha.
Uma verdadeira alucinação os meus pensamentos que, à custa disso, há dias que não sabia o que era uma erecção.

Tentei seguir vidinha sem grandes alaridos, sem grandes curvagens, sem grandes arremessos. E lentamente voltei à normalidade, embora com uma espinha atravessada na garganta: o estar teso como um carapau. Dias depois, estando eu no meu sossego medieval, recebi uma chamada.
A velha sucumbira! Fora atacada por uma virose à conta de um bife mal passado.
Não aguentou os fármacos e morreu com aquele sorriso que nunca conhecera a vida.
Podem não acreditar mas fiquei melhor um bom pedaço. Parecia que respirava flores em vez de bidés mal lavados. Fui para a rua festejar com uma garrafa em cada mão e deixar-me de lamentos. A Licas ligou-me a contar o que eu já sabia, disse-lhe, sinto muito e olha que vou rezar pela tua querida mãezinha.
Desliguei e continuei na minha felicidade.
Passei por uma montra que dizia: precisa-se de motorista. Ora, nem de propósito, como tinha uma certa experiência fui lá oferecer os meus serviços. Atendeu-me uma velha muito sorridente. Sentada numa cadeira de rodas. E a seu lado, uma jovem a querer saltar a cerca. Aceitei os 600 euros que ela me ofereceu e ainda a possibilidade de sacar a filha para os meus braços que, numa troca cruzada de olhares, parecia mesmo essa a intenção da velha, e por jeitos, agradava à morena a ideia de ser comida por mim.
Os dias seguintes foram longos e intermináveis. A velha tivera há uns meses atrás uma trombose mas desenrascava-se bem lá na sua cadeirinha manual. Eu ia fazer umas entregas de pão com chouriço caseiro pelas portas mais a Judite e, à noite, depois dela deitar a mãe e dar-lhe a papinha na cama, amávamos como dois anormais.

Tudo lá no alto.
Eu bem tinha dito um dia que a felicidade é um vaivém do caraças. Comida na mesa, roupinha lavada, quem é que não quer vida assim? A Judite soube mexer comigo e eu soube mexer nela, mas sem estragar muito. Pois eu no fundo sabia que, mais tarde ou mais cedo, podia dar para outros que viessem a seguir.

É tão bom abrir a janela e saber que a vida corre numa sumptuosidade tal que parece que trás as mamas de fora, a vida. Finalmente sabia o que era ter meia dúzia de trocos no bolso e uma barriga à chefe de família.

Um dia de manhã deu-se o pior, numa curva não fui a tempo e a carrinha só parou no outro lado da estrada. Graças a deus que eu fiquei bem, agora a Judite, graças a não sei quem, ficou toda desmanchada, desencolatrada. Dois dias no hospital e voltou toda engessada.

Tive esses dois dias na cama, completamente coberto pelos cobertores, a fingir uma meningite para não ter que limpar o cu à velha. Dois dias foram suficientes para que um cheiro nauseabundo pairasse por todo o prédio e os inquilinos começassem a reclamar com insultos sofisticados.

A Judite estava tola.
Eu já tinha ultrapassado essa fase, estava numa loucura mais estilo neo-realística, a escrever poemas em cima de poemas para não ter de esganar ninguém.

- Escuta, Judite, sou apenas motorista e não tenho de andar cá a mudar fraldas a ninguém, muito menos a velhas.

- Mas é minha mãe, porra, não é uma pessoa qualquer, é a tua futura sogra!

Calmamente, vim à janela, olhei o céu, respirei, fui buscar ar aos colhões, voltei a olhar o céu e vi um anjo com ar de tinhoso a sorrir para mim.
E noutra janela esta uma velha filada em mim, com um olhar atractivo.
Não há nada a fazer. Por muito que tente corrigir o destino, o meu é só um: só me saem velhas!




Sou maluco, sim senhor

Sim senhor, sou maluco, com visto carimbando pela associação de malucos do norte.
Ó, veja aqui, esta minha foto no cartão, veja lá se não sou eu? Para que saiba, sou maluco desde mil novecentos e noventa e quatro, ano em que descobri a bolinha de ping-pong amarela.
Desde daí, nunca mais parei de jogar com a bolinha contra as paredes dos edifícios públicos.

Sou maluco, com vários campeonatos ganhos, portador de medalhas ao peito para quem duvidar. Estudei muito para ser maluco, ajudei pessoas normais a se tornarem perfeitos malucos, tenho o orgulho de, em vinte anos de carreira, nunca usar meias da mesma cor em cada pé, nunca entrar em casa pela mesma janela.

Claro que nesta caminhada há muitos invejosos, gente normal que quer ser como eu, mas coitados, coitaditos, falta-lhes uma boca para engolir insectos e cuspi-los vivos. Como eu fiz certo dia, quando numa demonstração de desafogo mental, lá em frente ao juiz para que, antes de bater o martelo na mesa, dissesse: este gajo é maluco!

Ser-se maluco hoje em dia é arriscado, dá dor de cabeça, investe-se energias, já que, até os normais estão fazendo coisas incomuns e, maluco que se preze, tem de variar, fazer o que os outros não fazem, subir ao coqueiro mais alto, fazer enormes círculos com o xixi, logo, a imaginação tem de estar sempre em alta rodagem até fazer pião no pensamento veloz.

Só tenho a infelicidade de não ser um maluco por natureza, tive de aprender com os mais velhos, participando em colóquios, passar fins-de-semana em acampamentos com malucos mais experientes, trocar a minha religião por uma seita de malucos, afiando lápis nas orelhas, escrevendo poesia porno-popular.
Se eu não fosse maluco, a minha vida seria tão monótona, mas tão monótona, que o meu sangue reclamaria, os meus olhos acabariam por se tornarem ridículos ao verem sempre esta realidade tão carente e tão térrea.

Sou maluco sim senhor, já falei deste assunto com duas borboletas que me confirmaram. E vocês sabem que as borboletas não mentem. Maluco que é maluco corre atrás de um sonho sem pensar em desistir a meio. Maluco vai em frente, um pouco como a galinha, acreditado que, ao correr, o mundo gira. O meu sonho é casar com uma maluca e ter filhos maluquinhos.
Se houver alguma por aí que deixe recado por debaixo da porta que, assim que voltar do planeta Malaico, onde estou fazendo uma pós-paranóiquice, responderei.

Recordo com alegria o dia em que o médico me passou o atestado de doideira dizendo que o melhor era eu afastar-me da civilização.
Dei-lhe um beijo na face e corri atrás de mim para contar a novidade. Desde esse dia, deixei o trabalho, ganho uma pequena reforma e sou maluco a tempo inteiro. Assim sendo, fico mais por casa a roer as unhas dos sapatos e a envernizar as folhas das plantas.

Eu sei que você gostaria de ser como eu, vá, confesse, gostava ou não gostava de sair à rua sem aquela capa de mentira?
Mandar para o tanas quem tiver de mandar, ter um caso de amor com uma boneca de porcelana, ir às compras com o seu peixe de estimação, e os dois a carregar o cesto das compras, cada um com a sua asa.
Impressionar a gente culta com o tamanho dos seus olhos arregalados e boca meia de lado, dar um festival em como se dança no meio da rua sem ter música a tocar.

Está pensando o quê, que não sei distinguir a batata do escaravelho, que falo as coisas por falar? Acha que sou o quê, pirado da cabeça, fusíveis a menos, que passo a vida a falar com as pedrinhas, ou que não sei quantos dedos tenho numa mão? Vá chamar maluco à sua tia, ouviu, que eu não o conheço de lado nenhum, seu normalzinho!


terça-feira, 4 de maio de 2010

As conhecidas e velhas crises

- Ai amor, deste lado faz-me cócegas!

- Roberto, assim não dá! Quero avançar na ideia e tu tens que neste momento exacto, nesta precisão microscópica, neste quase infalível segundo, virar a cara ao lado!
Tens que me dizer o que tens! Não foi para isto que casámos, pois não?! Dantes, eras diferente, a tua vontade sobrepunha-se mil vezes à minha, adormecias com a tua perna em cima da minha, era preciso muita habilidade para te acalmar, ou já não te lembras que era assim? Depois havia noites em que interrompias o meu sono para aquilo que sabes bem. Agora é isto!

- Ai amor, deste lado faz-me cócegas!

Se o casamento viesse com possibilidade de devolução, garanto que te devolvia já amanhã ao sindicato dos sem-amor! Os teus beijos são tão rápidos que nem despertam o interesse nem sequer o interessado.

Fazes ideia há quanto tempo não nos beijamos como dois adolescentes? Pois digo-te: talvez há mais de sete anos, ou oito, ou quem sabe vinte.
Vá lá, Robertozinho, o desejo vem de todos os lados. Não te importas que afirme isso? Já não tens ciúme?
Lembras-te quando perguntavas sempre para quem é que eu estava olhando? Pois é, querias a atenção toda, agora, é isto: eu deito para um lado da cama e tu deitas-te para o outro lado, feitos dois brinquedos desligados. Aquelas boas-noites quentes, apagaram-se, adormeces que nem bebé, com as meias calçadas, com o coiso apontado para o sul, ressonas como uma vara de porcos e só acordas de manhã feita avestruz a dar à luz. Olha, é tão verdade que até rimou!

Definitivamente, não queres saber mais de mim! Pergunto: que foi que mudou desde a última vez, que foi que mudou?!
Daqui a pouco até me esqueço como se faz e o meu sexo dará só para fazer necessidades. E nada mais!
Tens de me dizer o que tens! Por que é que negas o calor da minha carne! Roberto, se eu sei de algo que ainda não sei, ah rais ta parta, faço de ti e do teu biscoito um assunto encerrado. Não me tentes, ouviste! Sou capaz até de virar macho só para te pôr fininho. Deixa-me tocar-te, sente o que sinto. Vá lá, ao menos tenta!

- Ai amor, deste lado faz-me cócegas!

- Porra, para o teu humor! Nunca estás pronto quando eu quero que estejas! Só te oiço falar que fazes e aconteces quando tens os teus amigos por perto. Aí, quem te ouvir falar, com essa tua lábia de D. Juan cá do sítio, julgará que Deus te safou de uma má potência ou que ainda tens muitos quilómetros para marchar. Treta! Precisavas era que eu contasse a eles que tu e o teu Benjamimzinho estão acabados, mortos, nikles.
Ou cansou-te sempre e sempre o mesmo peixe, foi isso?! Ou gripou o motor como em tantas vezes?! Ah, não me digas que é outra vez a asma ou a figadeira! Nessa já não caio!

- Ai amor, deste lado faz-me cócegas!

Vá lá, Roberto. Dá-me uma palmadinha no traseiro como dantes fazias. Uma pelo menos. Vamos recordar velhos tempos, esquece as tensões altas e o açúcar no sangue.
Pega, toma este comprimido azul que comprei na farmácia, só para hoje, quero ver-te a engolir, vais ver que resulta, que aquece o corpo e a alma. Ferra-me na orelha, ó sim, diz-me aquelas palavras obscenas, mágicas, chama-me condessa que eu gosto, vamos comemorar como se fosse aquela primeira vez na garagem do teu pai quando eu tinha ainda a pele esticadinha, não sobrava no pescoço, a anca estreita, sem variz a incomodar, os seios coisa e tal. Vá lá Roberto, vamos comemorar pelo menos esta noite os nossos cinquenta anos de casados.

- Ai amor, artroses, artroses!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Eu, e a minha máquina de lavar

Caríssimos leitores, sejam bem-vindos a mais uma rubrica em que o autor, após queda ao experimentar o efeito dos saltos altos, deu de queixos na calçada portuguesa. Voilá, por sorte nenhum senhor da conservação do património estava a passar no momento.
Mas, nem tudo o tombo levou. Nesse dia fiquei a conhecer o senhor Ernesto, exemplo de como contornar obstáculos sem ir à volta, ex-campeão regional de lançamento de cuspo, nos idos anos oitenta, com o record que ainda hoje se mantém, 35,17 metros de distância. Dizia com saudade e um choro miudinho, enquanto deliciadamente me exibia o seu cartão de praticante. Infelizmente a vida tem destas coisas, o senhor Ernesto foi forçado a largar a modalidade desde que o vinho encareceu e, ainda para mais o tipo da adega que lhe patrocinava às prestações, deu o badagaio. Mas nem vale a pena falar mais nisso, porque passado é passado.
Agora é uma pessoa feliz, disse-me, com a cramalheira a fugir para tons de beije, sempre que sorri.
O senhor Ernesto, tem uma particularidade abismal, mora numa máquina de lavar roupa há cerca de ano e meio, e recorda que os anos anteriores não lhe foram de todo favoráveis, até porque corria na barra do tribunal o processo de separação e a custódia dos seus sete filhos e outros tantos por perfilhar.

- Agora vivo tranquilo, senhor Silver, na minha máquina de lavar, e ninguém me incomoda! – Diz o homem sem querer com isso provocar alguma inveja.
- Mas ó senhor Ernesto, a adaptação devia ter custado um pouco, não, principalmente para os costados.
- Quando entrei pela primeira vez para esta minha nova moradia, sim. Não sabia onde é que iria pôr uma terrina da cristal D’arques que veio junto no enxoval e, quando quero fumar um cigarrito, tenho de sair da máquina de lavar por ter pouca aragem.

- Mas você não tem o sonho de morar numa coisa melhor, uma casa?

- Bem, o meu sonho é...como lhe dizer sem denunciar a minha timidez…não repare, sou assim, foi desde que conheci uma mulher, bonita como os raios de sol pela manhã, e, após falarmos disto, falarmos daquilo, os afectos a correr-nos nas veias, estamos a pensar em casar, juntar os ossos e as carnes, e como deve calcular, precisamos de mais espaço para unir as nossas vidas, os nossos sonhos, que temos vindo a batalhar, por isso, uma máquina de lavar maior um bocadinho, tipo: 2 por 3, com um bom tambor de rotação a baloiçar devagarinho para os dias que custa adormecer, era o melhor que nos podia acontecer. Se possível com um cantinho para a criança que vai nascer e poder brincar à vontade.
- Não compreendo, mas isso não será no mínimo...apertado!
- Nada disso, tenho projecto na cabeça, se tudo correr bem no dia 27 de Maio estarei eu e a minha Mélinha na nossa nova máquina de lavar, a contar o dinheiro das prendas antes de estrearmos o colchão ortopédico, que só Deus sabe o quanto lutei em tribunal pela custódia dele. Na altura em que eu era atleta de lançamento de cuspo, estava em alta, e conheci muita gente importante, mexia-me bem no meio, foi a partir desses meus conhecimentos que, com uma cunha (chegou-se bem perto do meu ouvido, “mas não diga a ninguém”) obtive licença para colocar a máquina de lavar no alto de um pinheiro, situado num baldio da Panasqueira. Sabe senhor Silver, estou muito contente, vivo os melhores dias da minha vida!

Depois, um silêncio nostálgico, um poisar de olhos pelos botões de máquina de lavar e, como o vento nada trazia nada levava, despedimo-nos com uma certa velhice, mas antes disso, perguntou-me:
- E você, senhor Silver, como vai a sua vida?

Hesitei, trinquei o lábio de baixo para ter tempo de pensar, no curso de direito que tenho para acabar, depois estagiar no chupista do advogado, na obsessão que tenho pelas dietas, separar as gordurinhas, as ameaças de corte de luz. Lembrei a bosta que foi quando apanhei Nita em flagra a gritar golo do Porto, a felicidade a ir pelo saneamento, pus-lhe a mão no ombro (entrou a música do Titanic) e perguntei-lhe: - Que máquina de lavar me recomenda?