segunda-feira, 29 de março de 2010

Mãe, ó mãeeee!

Escuta mãe,
por ti eu nem ia ao café ali ao lado, tens medo que eu me perca pelo caminho, tenho de te pedir licença por tudo e por nada, sabes que eu gosto das camisas em tons de verde, mas tu, não, trazes sempre camisas azuis só porque meteste na cabeça que assim é que estou bem e longe de mim que diga o contrário!

Por ti casaria com a prima Joana só porque os tios têm umas terrinhas espalhadas em Bragança e têm um sotaque provinciano que tu elogias e eu detesto.
Tenho os meus direitos. Fui à escola por alguma razão! Não aprendi apenas as contas que me mandavam fazer.
Olha, por vezes aprende-se mais no recreio do que dentro de uma sala de aulas, entulados de teorias até o tutano.


Quando me acordas, com teus tiroteios na voz, a puxar os lencóis, bem antes das dez da manhã, nem sabes o quanto fico impuro. Nem dois bidões de lixívia dariam para limpar a minha alma de impurezas pelo excesso de ansiedade.
Quero dinheiro para ir ao Rock in Rio e tu, primeiro que te decidas a dar é um pandemónio de primeira categoria, quero um portátil novo e tu vens com a velha história, «deixa as coisas melhorarem», falar-te em aumentar a minha mesada é coisa para debater em assembleia num jantar de família.

Também te digo, peço-te que me deixes crescer, só isso, olha, escusas de me dar o beijinho da seca logo após eu me deitar. Ou julgas que eu não sinto a tua boca tocar-me na testa?
Mãe, por favor, sabes quantos são hoje não sabes?! Diz-me que não farás mais questão de me acompanhar até ao outro lado da rua porque os carros são muitos, que não me vais mais esperar às xis horas à saida da piscina.
Mais, a partir de hoje ligarás para o meu telemóvel apenas quando uma urgência apertar e não para perguntares se está tudo bem, se já lanchei, cuidado com o trânsito, etc.


Mãe, olha para mim, esta barba rija e abundante não te diz nada?
Vê os meus braços, olha as minhas pernas, não achas que cresceram como deve ser? Devias saber que eu já não uso nem bonézinho na cabeça, nem meia rendada até aos joelhos e, as borbulhas que tinha no rosto, só tu é que te lembras delas quando vens com os teus cremes Dove para limpar a minha cara como se fosse o rabinho de um menino de cinco anos. A minha voz está mais grave, não notas?, não sentes?

Quando me dizes que nasci cansado eu bem sei que é só para me negares dinheiro para tabaquinho, sabes que eu não sou doutor como o irmão porque as coisas não me correram lá muito bem. Mas não foi das noitadas, como dizem as más-línguas.


Se me deres uma nota de cem, eu prometo-te que vou arranjar emprego quando me tratarem pelo apelido e não por este diminutivo que carrego.
Mãe, não te esqueças que amanhã faço anos, são tantos que me perco a contar pelos dedos. Vá lá, quero um fato novo para vestir, preto de preferência, quero aquele perfume que te dei a cheirar uma amostra no outro dia mais uma Consola para as noites em que o sono não vem.

Oh please, me dá mais um tempo para eu arranjar uma namorada bem sucedida na vida! Alguma me há-de levar ao altar, nem que seja ao pontapé. Eu te prometo, mas desta vez sem fazer figas por debaixo da mesa.


Porra mãe!, quantas vezes já te disse que estas olheiras são de ver muita televisão?!, não me toques no cabelo, por favor, ele já é pouco, não insistas mais para eu me levantar cedo, para ir procurar um trabalho,
que me deixe de aventuras,
eu sei como se faz à vida,
vou fazer quarenta e três anos,
achas que ainda não sei tomar conta de mim?
Wak up!

terça-feira, 23 de março de 2010

A culpa é do Bilinho

Estou triste. A Tatiana ligou-me a dizer que esta noite não ia haver nada p’ra ninguém. E eu, que toda a noite sonhara com o filme sobre o que podia acontecer entre nós dois, sobretudo no sofá que, segundo ela, veio lá das índias. O meu pensamento perdeu a cápsula, assim que ela me disse: ó pá, infelizmente não me dás boas energias. Ouvido isto, foi possível detectar a milhas um fumo negro a sair-me das orelhas. É que ela nem deixou concretizar o meu mas…, desligou de imediato, causando uma febre mitológica algures no peito. Energia, não lhe dou energia? Fiquei logo com o caralho do dia estragado. Afinal de contas a Tatiana é uma preciosidade, uma preta que mexe bem as ancas e com muita sabedoria para assuntos de astrologia, ao qual eu, jorginho para as amigas, me predisponho a ouvi-la em troca de uns vinte minutos de carícias pela espinal medula.

Levantei-me abstracto da cama, com uma pasmaceira filha da puta, como se acordasse no meio de um estádio de futebol com as equipas em jogo. Eu ali, indefeso e nu, na minha cama napoleónica. Simplesmente horrível. Nem é bom pensar. O Bilinho ligou-me a contar umas coisas que eu não entendi puto. Dava a sensação que estava a perder a virgindade e a tentar relatar o acto em austro-húngaro. Disse-lhe: Bilinho mantém-te calmo. Olha, o melhor é passares aqui em casa. Ok, respondeu-me, num tom de asma. 
Enquanto esperava que ele viesse, levantei-me da cama, vi no espelho que continuo a mesma merda, vesti a minha jaqueta preferida, fiz umas torradas e aqueci um leitinho para não ter que gastar guito na rua. Afinal de contas, a vida está ruim, para não dizer f*. Soube pela televisão que o cabrão do meu ex-patrão falecera de traqueotomia ou lá como se chama.
Nunca uma morte me saiu tão cara. Foram trezentos e tais euros que não deram à costa e foram pró caraças. Ainda pensei ir ao funeral cuspir na campa dele mas, nesse segundo, o Bilinho bateu à porta. Mandei-o entrar, enquanto eu, na casa de banho, metia a rodilha da camisa para dentro das calças e dava umas sapatadas no rosto como quem diz, vamos à vida! Na sala espantei-me ao ver o Bilinho com duas muchachas bem-parecidas. 
Quem diria que aquele branquelas de sessenta quilos era capaz de uma proeza destas. Apresentou-mas. A Joana, cabeleireira, e a Ruth, fisioterapeuta. Da minha boca irónica escapou-se: pois, pois. Contai-me coisas, disse-lhes, ao mesmo tempo que apontava para o sofá para se porem à vontade. O Bilinho friccionava as mãos num contentamento que eu sei lá. Já eu, mordia a mosca que deixei crescer no lábio inferior.
Mandei-as falar abertamente. Elas começaram a dissertar sobre o amor que as une. Uau!, o assunto começou a interessar. Depois disseram que queriam dar à luz um filho cada uma. E que precisavam de dois voluntários. Mas que obedeçam a determinados parágrafos. Como assim?, perguntei-lhes. Têm de ser homens fortes e inteligentes!, responderam em uníssono. O Bilinho de pronto se ofereceu, dizendo que tem uma pós em artes modernas. Só que os seus sessentas quilos não as fizeram convencer. Talvez a ideia fosse em eu fazer o caldinho às duas, sei lá. Fiz-me de difícil. Afinal de contas não é todos os dias que aparece alguém com habilidade para fazer dois filhos de uma assentada só. Começaram a dizer que a vida vai mal e, coisa e tal, tal e coisa, acabei ficando em pele-de-galinha. Bem, vocês conhecem-me, né, não posso ver ninguém a passar mal, quanto mais duas relíquias daquelas tão guapas. Mal dei o ok, vocês haviam de ver, as moças sorriram como verdadeiras puras donzelas, arreganhando os faqueiros. Já sem mais para quê, em câmara lenta, despi o casaco, desapertei os primeiros botões da camisa, depois o das calças, o Bilinho expectante que alguma coisa lhe sobrasse, quando, bem pertinho delas, de lhes trespassar este meu chilreio de macho, tanto a Joana como a Ruth, ora foda-se, espetaram-me com dois frasquinhos nas mãos que iam para agarrar mas nada agarraram a não ser os frasquinhos que, segundo elas, bastariam umas gotinhas. Bolas!, na hora fiquei obtuso mas, como homem de pulso que sou, peguei numa revista de carros e fui para o quarto fazer o serviço. Enquanto isso, o Bilinho fazia as hostes da casa servindo-lhes um chá afrodisíaco, contando-lhes ao ouvido a versão adulta do capuchinho vermelho. Meia hora depois, saí da porta com os dois frasquinhos em punho, e disse: Habbemos Papa(i)!

terça-feira, 9 de março de 2010

O Azarista

Neste sacrílego momento, o céu nada me diz. Dou quatro, cinco voltas à casa e não me acho. Perdi-me lá atrás, bem no fundo dos dias com a mala pronta para a despedida. Nunca achei trevos com mais de três pétalas, nunca me disseram: vem daí tomar um café comigo. Raras são as mulheres que me beijam na face, para me cumprimentar estendem logo a mão. Sou um azarista de nascença. Aprendi a andar cedo por ninguém pegar em mim ao colo. Os gatos pretos para mim são como jóias: ponho-os ao pescoço.
Bato com a cabeça na parede e ela chora, a parede. Tudo é ruim, mesmo pronunciar a palavra ruim faz-me formigueiro nos tomates. Ó, eu não disse? A minha vida é um espanto, desculpe-me, não o quis espantar. Os autocarros não esperam por mim. Em dias de chuva os carros passam por cima das poças de água e eu fico como um pito molhado.


Nos restaurantes a sopa vem sempre fria, e quando vem quentinha o garçon faz o favor de ter o dedo metido nela. Calha-me sempre a mesa ao pé do WC. As moscas, sei lá porquê, gostam da minha filosofia.


Não há camisa que me assente, a costureira diz que é defeito de fabrico, o meu corpo. Tenho dias que mais parecem noite. Já fui humorista mas de tanto rir caíram-me os dentes da frente. Agora riem-se de mim, e eu choro feito aquele puto ranhoso e chorão do quadro famoso. Quando estou a tomar banho, com o cabelo enshampoozado, falha sempre a água. Quando vou às “tias” encontro sempre lá alguém conhecido. De manhã o meu Peugeot nunca pega, tenho de o empurrar por uma estrada a subir. Os vizinhos nestas alturas estão sempre com muita pressa, ou a fazer coisas. O meu papagaio ri-se eu enervo-me e desloco parcialmente o maxilar. Chamo os bombeiros e vem a polícia.
O meu número da porta é o 13. O meu número do telemóvel acaba em 13, casei-me num dia 13, tenho 13 dias para pagar ao senhorio. Sempre me deixei perder no jogo a ver se tinha sorte no amor. Fui levado na cantiga. Na rua, quando estou com uma vontade imensa de fazer xixi, aparece sempre a minha antiga professora da escola primária a perguntar como está o seu menino. E eu a fazer que danço. O meu aniversário é sempre naquela data em que ninguém se lembra. Quando vou para dizer uma coisa importante fico gago.

O pai natal manda-me muitos cumprimentos. A filha do Elias trocou-me pelo meu irmão gémeo. Todas as frutas que mordisco tem um bichinho lá dentro. Tenho pé de atleta e muita gente pensa que isso é uma vantagem para o desporto. Fui operado aos pulmões e o médico deixou lá o seu cachimbo cubano, aceso. Quando perdi a virgindade fiquei com a sensação que fizera com o sofá. A minha mente mente. Sou uma pessoa de difícil acesso, moro no alto de um pinheiro. Uma vez fui ao oceanário a Lisboa e um tubarão sorriu para mim. Só mais tarde é que soube que ele tinha laços parentesco para comigo. Na ópera ou é o telemóvel a tocar com a música da Shakira ou são aqueles ataques de tosse que me deram a alcunha de Espanta-mortos.
Quando alguém dá um pum as pessoas desconfiam logo de mim. Eu fico tão corado que nem plantação tomates serve como metáfora.
Se estou a ver uma montra por volta das onze da noite pensam sempre que a vou assaltar. O meu partido perdeu as siglas num combate. A minha sorte está carregada de azares. Não sei por quê mas os meus estrugidos queimam-se todos, assim como os meus respectivos aventais bordados à mão.
No acidente de camioneta todos se salvaram excepto eu, que parti a perna em três lados. Se alguém cai e dá um berro, eu caio e berro em dobro. Quando vou à pesca ao rio os peixes vão dar uma volta até ao mar.

Milagre tive eu quando num dia de gente arrodos, num hipermercado, fui único refém de um bando de assaltantes que, por felicidade minha, fizeram a infância comigo num colégio de correcção. O azar persegue-me. Eu bem lhe finto mas acabo marcando golos na própria baliza. Na escola era o primeiro em quase tudo, principalmente a ir ao quadro e a experimentar as réguas. No dia em que ia começar a ter aulas de piano, fiquei tão contente que quis lançar um foguete ao ar, e não é que o gajo estourou-se-me nas mãos. O médico deu-me alta passados três dias. Mal saí do hospital tive de regressar devido a um traumatismo craniano. Quis descer as escadas de dez em dez degraus, para impressionar uma enfermeira que dava boas picas.


Quem me acompanha acaba por ter azar igual. Por isso ando sempre só, a piscar o olho às andorinhas, mas sempre com aquele cuidado. Não vá uma delas fazer na minha careca precoce. Afinal o que sou? O meu pai diz-me que já o pai o pai do pai dele era assim. A minha mãe quando lhe pergunto começa a rezar para não ter de chamar de novo o espiritista. Enfim, sou aquilo a que se chama: um sortudo dos diabos!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

esta crónica não é crónica

Isto não é uma crónica, não é uma prosa poética, não é poema, não é texto de literatura, não é uma confissão, não é excerto de prefácio, não é propaganda, não é panfleto partidário, não é demagogia, não é testamento, não é troca de correspondência, não é assunto para ninguém, não é piada que se conte, não é cópia de nenhum original, não é certidão de porra nenhuma, não é querer dizer mais do que aquilo que é, não é guião de filme de terror nem suspense, não serve para nada, não é bem visto, não é acto de coragem ou preguiça, não é extraído da consciência, não é método de exorcismo, não é fundamental, não é para nenhuma idade, não tem catecismo, não é positivo, não é reciclável, não é texto que se escreva num jornal como este, não tem cenário por detrás das palavras, não tem quota de inteligência, não tem metáfora de abrir a boca de espanto, não tem selo de recomendação, não tem pátria, nem a p* que o pariu!
Este texto tem umbigo, mas está sem baço e sem pescoço, tem uma justa injustiça, tem um rio sem braços, tem um automóvel em contra-mão, tem Napoleão ressuscitado, tem uma panca que empanca, tem e não tem. Não tem fintas, não serve para o futuro, não é para que desista agora, não tem fatos nem factos, não foi feito com boas companhias, não tem cheiro a resina de pinho, não tem por que ter, não tem saúde nem doença. Este texto é neutro, sem clube, sem sexo, sem mãozinhas de veludo. Por ser humana, faz comichão.
Quando muito pode ser cocó de pássaro que sobrevoou esta folha branca e as letras assim ficaram, neste texto que não é texto nem é pretexto para eu estar a falar. Isto que vou dizendo não é recomendação nem tão-pouco antevisão do que vai acontecer. Não tem sabor a chocolate mas tem cor parecida, tem talvez sim ou não a minha vida aqui metida. Também tem pedaços de porcelana e nódoas de café e quem sabe um pouco de melancolia em forma de ovo. Se encostar uma orelha a estas palavras pode ser que oiça algo, um eco que transforme a sua vida, portanto, aguente mais um pouco e saberá para que serve este texto que eu juro que em toda a minha vida não escreverei outro igual. Pois pode ter a vantagem de não ter vantagens, pode querer ser pai e filho ao mesmo tempo.
O que está lendo aparentam ser palavras, promessas furadas, tatuagens que não duram mais que duas horas, relógios com cucos a bater mal das ideias, presunções atómicas. Olhe que não!, este texto é para a senhora ali, é para o senhor acolá que está mordendo o lábio, é para que saibam que eu não sei o que digo, é para despertar quem não está a dormir, é para quando a castanheira não tiver mais jornal e quiser fazer o cone, é para aquecer melhor o arroz, é para aquele que foi na mata com uma aflição daquelas.


Se você desistiu de ler, então não saberá que este texto tem por missão combater os astros, as fracas sinas, os maus-olhados, os bens-olhados, fazer de conta que. Se continua lendo, então vai saber que este texto tem por único e singularíssimo objectivo dar um tiro ao ar, mas sem ferir nenhum Deus. Ou, quiçá, convencer o peixe a saltar para o prato, ou ganhar apetite sexual antes de dormir ou ter como desculpa que chegou tarde a casa porque caiu de riso ao ler isto?
Mas atenção, não é um xarope nem produz efeitos de grandezas. Este texto é do mais simples e natural que pode haver, depois de o ler não o quererá mais ler, quererá manter a distância entre o ser e o não-ser. Porque aqui vai encontrar os restos mortais do Almada Negreiros, o sangue do Vasco da gama, o olho perdido do Camões. Mesmo que não encontre posso dizer que eles aí estão, por detrás de cada verso bebendo conhaques e jogando a bisca. Estou a ser longo? O senhor está fervendo? Não conseguiu chegar até aqui? Foi-se embora por quê? Responda-me!


Estou triste…você foi-se embora e deixou-me aqui sozinho. Pensou desde logo que este texto não serve para nada a não ser para alimentar o meu ego canino. Então digo-lhe, se desistiu, aconselho-o vivamente a procurar um neurologista. Eis o meu diagnóstico: você está com problemas de stress, sabe que a vida corre e não a acompanha. Você precisa é de descanso, de jardinar o seu pensamento, enfim, experimente ligar para o relax a ver se lhe sai a sorte grande ou troque de parceiro. Se foi dos que chegou ao fim do texto, parabéns, você está bem de saúde, pois segundo este texto - que é um medidor de pressão arterial e outras ansiedades – as suas tensões rondam os 11/8.

Assinado por: Dr. Jorge da Conceição, um pré-médico à vossa disposição. Favor de deixar gorjeta (ou cigarros) na portaria da casa amarela. Até mais ler!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

as amizades só fodem um gajo

ao longo da minha vida perdi contactos de amigos que, por acaso, alguns até me davam jeito manter essa amizade ainda, pois, desde que muitos se foram, acabou-se a cerveja à borla e boleias.
o desenrasque é diploma que não posso fazer fé, pois dependo sempre dos materiais que tiver à mão. os sacos de cimento de 50 kg fizeram mazelas em meus ombrinhos.
logo, despedi-me da firme, com uma carta do médico, a diagnosticar-me demência precoce, para me dedicar a chular o estado.
foram dois anos de vida de morcego. muitas noites a jogar à batota e a ser servido por boas mulas. época de lorde, a bem dizer. e de dia, movido a remédios, escrevia umas croniquetas remelosas para o jornal da terra por vinte paus e umas buchas de trigo.
recordo ainda que comecei a engordar feito camionista, tudo à base de ovos e cebolada e, para contrariar esta decisão do meu corpo, dediquei-me a fundo à pratica da masturbação. desporto este que me fez ganhar bons bícips e com eles ganhar um campeonato regional de braço-de-ferro.

a helena tinha rompido comigo por uma merda de nada. uma noite estávamos em epiléctrica dança sexual quando troquei o nome dela por outra. não me perdoou e desopilou para a casa dos pais, levando consigo os meus vinis do manitas de plata. fiquei furioso e, como paga disso, fiz uma sande com os peixinhos dela, que ela tanto amava. quando soube, meteu dois capangas em perseguição contínua, um deles tinha ar de quem gostava de enrabar, e eu, jorge da conceição, como virgem que sou nessa área, tratei de mudar de cidade.

lisboa estava com um ritmo alucinante, as boites cheias, os pedintes enfeitam muitas ruas, há mulheres a venderem-se ao preço da chuva. os mariconços são mais sofisticados do que os do norte, sabem muito de cultura neo-realista. por enquanto nunca me caiu nenhum na sopa. pelo contrário, os meus amigos eram amigas de vários quadrantes sociais, desde empregadas de loja de ferramentas até a bailarinas de varão.

as boémias só produzem um mal, aliás, dois, mal à saúde e à carteira. ainda a receber o fundo de desemprego, ideias não faltavam e, de quando em quando, ia a uma casa de fados para descongestionar.
foi lá que conheci a andreia, divorciada há dois meses, a sofrer como um moranguito, cheia de vontade para arrombar uma braguilha. conversámos muito na primeira noite. ela tinha um porte bem arejado e umas mamas que, segundo a minha fértil imaginação, eram duas bondades. tratei logo de adiantar conversa. ela prestes para falar do novo livro do saramago, mas eu, assim sem mais nem menos, inventei uma dor de barriga, saímos de urgência do local e fomos apanhar ar numa encosta ali ao pé. pelo caminho deu-me uma vontade poética de comê-la, mesmo ali atrás do quiosque, mas mantive-me sereno, a meio pau.

afinal de contas eu sou um leão que sabe esperar.
para dar veracidade à minha dor de barriga, pedi-lhe que esperasse um pouco e fiz de conta que fui fazer atrás de uns bidões de gasolina. isso deu-me tempo para pensar na falta de respostas que o mundo tem para dar aos homens ao mesmo tempo que media o meu entusiasmo.

após esta rapidíssima tertúlia entre eu e o meu alter-ego, chegado à beira dela, convidei-a a conhecer um moinho sitiado em plena praia deserta. ela logo entusiasmou-se, sobretudo quando eu lhe disse que no seu interior ainda havia vestígios de visigodos. embora eu não perceba um caralho disso, disse-lhe isso.

a noite estava num estado fenomenal, diria mais, a noite estava perfeita para dar uma trolitada à luz da lua cheia. penso que, segundo o meu diário mental, será a primeira vez que farei em chão duro. só tenho de ter cuidado é com as aragens.
o meu corpo aquecia como se fosse a gás carbónico, eu só estava concentrado em. e ela sempre na sua meiguice, a olhar para todos os lados a ver se via os tais vestígios que falei, com aquele olharzinho de eucaristia mas que me dava cá um arrepio na costela número sete.
ao fim de dois minutos lá nos sentámos de frente para a lua cheia. eu não me importei, desde que ao fim de outros dois minutos ela tocasse violino aqui nas cordas dos meus pintelhos, está-se bem. no silêncio soube-lhe dizer coisas magnífcas, e na heráldica dos segredos dos amantes, também.

a minha mãozinha, com a prática de outros tempos, lá pousou na coxa dela, senti ali, um querer mais que bem que querer como disse o camões. comecei a subir, a subir, até à luz secreta. ela a contorcer-se mas a participar na borga. apertei-lhe a carne como uma vez vi aquele gajo italiano, peludo, dos filmes porno, a fazer. vocês conhecem.
quase perto de lhe conhecer o quinto império, dei tudo por tudo, passei-lhe a mão de leve na calcinha e, merda! desculpem o palavrão, mas foi aqui que descobri que ela tinha um enchumaço! e por sinal maior do que o meu! desmacarei-a, aliás, desmascarei-o com dois socos de cada lado. ele tirou a peruca e disse-me chamar-se rui!
(mudou o tom de voz, mais à homem)- então mano, não te lembras de mim? sou eu, o rui zincas, do liceu! óculos redondos, nariz de picareta, isso não te diz nada??

- o rui solha? o maricas? aquele que foi caço atrás do ginásio com a mão na massa de dois moçambicanos?
- esse mesmo!
- ei rui, estás...com um óptimo aspecto! dá cá um abraço, há que tempos! ó rui, desculpa lá, essas mamas são mesmo tuas? e esses biquinhos em tom de aveia, como conseguiste? posso...

antes que me atrevesse a comprovar a tenacidade delas, basei, a correr, a correr muito, a querer lá saber de artroses, que só parei em casa, dentro da bacia que faz de banheira, contemplando um sei lá bem o quê.
a partir desse dia cheguei à conclusão que as amizades só fodem um gajo.

o cão do sócrates

caros leitores poetas e amigos de todas as raças e nações, venho por este meio dizer-vos o quão triste estou.
ontem, pelas 22:30, hora de portugal continental, estando eu bem alapadinho no sofá vendo um talk-show no hot canal, de boca cheia de pipoca, quando, a emissão foi interrompida para uma notícia de útima hora: o desaparecimento do cão do sócrates!
há muito que não se ouvia uma tragédia assim. nem quando a queda das torres gémeas.
ao saber da tristérrima notícia, o parlamento reuniu-se numa sessão extraordinária e de imediato foi dado o alerta vermelho para que as buscas se realizassem, já que, o cão do sócrates, é para todos nós a coqueluxe da nação.
as autoridades pularam para o terreno com as suas sirenes em fúria. colocou-se ainda a hipótese de a Alquaeda estar metida no assunto, mas logo se pôs esta questão fora de hipótese uma vez que o cão do sócrates, segundo vários opinadores, nutre simpatias pelo camelo do Bin laden.

todos os portugueses especaram de frente ao televisor na esperança que as coisas voltassem à normalidade. os operadores de câmeras da SIC e TVI andaram à batatada pelas ruas lisboetas na ganância de ver qual deles o mais rato e o primeiro a encontrar o cão do sócrates. as ruas estavam escuras e não se via cavaco.
quarteirões mais adiante, lá para os lados do hemiciclo, o cavalo do francisco louçã mais o burro do ministro da defesa metiam os seus focinhos onde eram chamados, mais concretamente, patrulhando urinóis públicos e parques infantis.
o cão do sócrates é um bicho indefeso, sem categoria para fazer jus das suas garras, inclusive houve um sábado de manhã que o macaco do paulo portas fugiu da jaula e deu em cima do bichano do sócrates, que o deixou com uma ferida aberta e inconsciente uma boa meia hora. na altura não deram muita importância ao caso, nem tãopouco abriram inquérito para averiguar se no meio da luta existiram outros tipos de malícias, já que todos sabem que o macaco do portas tem queda para o vale tudo menos arrancar olhos.
dado o impasse das buscas, a comitiva socialista estava de trombas, pois sabem diante mão que se der como certo o desaparecimento do cão do sócrates pode pôr em risco as próximas eleições legislativas. as horas iam-se e não havia progressos. nem mesmo o morcego do oliveira e costa, que é especialista ver melhor do que os outros, até mesmo interior de bolsos, não via a ponta de um corno.

os portugueses uniram-se nesta nobre causa, e cada qual à sua maneira sairam à rua, tingidos de solidariedade, para achar o animal perdido. tudo era vasculhado, desde atrás dos pinheiros (já agora, vocês sabem onde fica a parte de trás de um pinheiro?, é no lado onde a gente caga!), passando a pente fino museus arquelógicos até mesmo em casa de putas em serviço. tudo era palmilhado à mínima. só assim é que o quadrúpede do sócrates haveria de ser encontrado, se possível vivo para não manchar a história de um partido.
a imprensa televisiva relatava todos os passos do caso com mestria, excepto quando o josé rodrigues dos santos largou os microfones e saiu a correr dos estudios com a cadela da sua prima, conhecida pelo seu sofisticado faro de longo alcance, que, salvo erro, faz parte do paquete da nossa querida gnr. com o nervosismo a aumentar, o governo decidiu atribuir uma recompensa a quem primeiro achasse o cão do sócrates que, segundo fontes próximas de não sei quem não sei que mais, foi visto na madragoa a dar duas dentadas na galinha da manuela ferreira leite que a deixou com uma grande contusão. tadinha!

a interpol, a judiciária, o fbi, os boinas verdes, detectives particulares, bufos reformados, todos accionaram os seus sistemas de alerta. cortaram ruas, ninguém podia entrar ou sair da cidade, os consumidores de coca viram-se à nora, o josé cid perdeu o comboio para o apuramento do festival da canção e estava a fritar miolos, trânsito parado,
lojas arrombadas,
pretos brancos e amarelos aos murros,
ciganos com máquinas de flipperes às costas, candidatos a bissexuais a arrombar vitrines de sex-shops, estava tudo em pantanas.
a lili caneças deu à sola de uma clínica de estética com as tripas na mão. um caos.
se o cão do sócrates fosse encontrado vivo seria certo dois dias de feriado nacional, com direito a entremeadas feitas a partir da porca da ministra da educação.
o túmulo da amália foi encontrado aberto, deduziu-se que também ela se juntou à causa. propagandistas pelas ruas, de megafone em punho com o slogan: ajudem a encontrar o cão do sócrates! as pessoas entristeciam a cada minuto, os operáros de uma fábrica de panelas foram mandados para casa, nestes moldes não havia condições para paneleirices.
transmissões em directo de suicídios, de peregrinos que prometiam à santa, repórteres na rua, nas gráficas já se imprimia a letras gordas os cabeçalhos do desaparecimento, tomara a deus que tinta não se acabe, há muito para dizer e contar. mais do que na morte do michael jackson.
os cronistas atiravam culpas ao partido da oposição, que tinham avisado que mais tarde ou mais cedo iria acontecer o pior. vários bruxos catedráticos reuniram-se numa mesa de búzios, e nada. o dia a fazer-se, e nada.
o cão do sócrates foi desta para melhor afirmavam os mais fanáticos religiosos.
era cerca das onze manhã quando pela escadaria do parlamento surgiu num andamento de vivaldi, o cão do sócrates. houve quem falasse em milagre. houve quem fosse a correr dar duas esmolas a um pobre ao saber que ele estava ali, vivinho da silva.
logo se fez aparato em volta do cão do sócrates, não contendo os populares em dar mimos e festejos ao animal, e este, sem perceber puto do que estava a acontecer.
mas, em dois minutos breves ficou a saber os porquês das gentes ali e suas peocupações.
o cão do sócrates que, apesar de ser perito em alta-finança, ignorou e continuou a subir a escadaria do palácio de belém até aos seus aposentos caninos, e pensou lá com o seu rabo: já gora um gajo não pode ir a vigo comprar caramelos que fica tudo em pulgas!

crónica sobre a crónica mais triste do mundo

Ninguém sabe quando nem como, mas aconteceu nesta vida, neste planeta, neste continente, neste país, nesta cidade, nesta aldeia, nesta rua, nesta casa, neste quarto, que inventei a crónica mais triste do mundo.
Não era coisa de vida real ou alegorias de cavernas, era um texto que falava de terra e oceanos sem nunca ter saído daqui. Eu próprio chorei em cada verso, ainda hoje tenho marcas fundas debaixo dos olhos que, para ver ao longe, agora preciso de óculos graduados. Mas tive de lutar até ao fim, rasgando meu corpo para alcançar o verbo que se escondeu atrás de um substantivo que era filho da mãe. Cada parágrafo era mais uma tristeza. Caramba, não bastava o dinheiro que gasto em raspadinhas!
Um anjo avisou-me que parasse, pois os danos são de cegueira para cima e caganeira para baixo. Arrisquei. E o anjo sumiu no seu Ford Fiesta a gasóleo. Desde então fiquei só, na possibilidade de tornar óbvio todo o obscuro que me rói. Mas não tenham pena de mim que o cangalheiro também não tem, pois já o vejo sorrindo, asquerosamente, com os seus dentes que era de outro que morreu.

Pedi a Deus uma forcinha, e ele respondeu-me assim: “agora não, tenta mais tarde”. Infelizmente terminei a crónica, com pequenas minas em cada palavra. Avisei o leitor para que tivesse cautela, não fosse ele cair em tentação de chorar feito uma Madalena arrependida. Mas nem isso evitei. Na semana em que me leram, os psicólogos deram mais de mil consultas a pessoas que, sem razão aparente, se entristeceram ao ponto de roçar a loucura. Inicialmente, pensou-se que seria o facto do Cristiano Ronaldo começar a cantar, mas não, essa súbita tristeza foi causa\efeito da leitura à crónica mais triste do mundo, que, entre outras contra-indicações, aguarda aprovação para entrar no livro de s. Cipriano dentro de uma arca de gelados.
Toda a cidade envolveu-se em mistério, e as autoridades deixaram bem claro: ninguém chega perto dessa crónica! O exército montou um esquema. Não viesse uma palavra por aí e fizesse surto na população.
Caso semelhante a este só mesmo a gripe espanhola. Alerta vermelho em todo o país. As sirenes tocavam pelas 21:30, os civis obrigados a recolherem-se às suas casas e, enquanto isso, no silêncio dos silêncios, cientistas de várias nações, incluindo Freud, que fora repescado do túmulo, reuniam-se em subsolo na esperança de inventar vacinação.

O clima era tenso,
estradas cortadas,
os hospitais à pinha,
crianças, velhos, grávidas, padres, políticos,
ninguém escapava à tristeza da triste crónica, que em sete dias quase fez parar o país. Pelo que se sabe, nem a Amália no seu melhor causou tanta choraminguice.

“Antes viesse um dilúvio!”, comentavam familiares das pessoas afectadas. Pensou-se também se não seria o Bin Laden quem estivesse por detrás deste cenário. Alguém veio a público dizer: se o autor resolve escrever mais duas ou três crónicas de igual género, preparem-se para o pior! Arma química! Nem filósofos, catedráticos de língua portuguesa românica, quanto mais curandeiros, que logo viram uma oportunidade de negócio, fazendo uns trabalhinhos de espiritagem nas casas dos incrédulos.
E o pior era o contágio. As pessoas choravam por tudo e por nada. Pareciam bebés quando não querem ir já para a cama. Mal começavam a ler choravam e deprimiam-se, ou vice-versa.

Por estas e por outras, especialistas em fatos especializados, recolherem todos os jornais com o máximo de cautela, à base de pinças. Pois se uma crónica deste calibre caísse em mãos alheias, já se imagina o fim. Chegaram até pedir auxílio ao super-homem, mas por azar encontrava-se nas Caraíbas a curar uma enxaqueca, ou melhor dizendo, uma kriptonitite aguda. Já o homem-aranha, estava a rodar mais um filme.

Eu, como autor, fui chamado a depor e, no momento em que subi as escadas da barra do tribunal, as pessoas em fúria, munidas de tomates, ovos, mp3 avariados, CDs do Emanuel, ao lançarem sobre mim sem me avisar, lógico que acabei ficando com a cara numa salada. O juiz estava de máscara a tapar-lhe a boca e o nariz. Os polícias idem aspas. Os jornalistas tinham a gola das suas camisolas até ao nariz afim de se protegem também eles de uma possível transmissão de vírus triste. Um passo em falso e a tristeza propagar-se-ia.
Por isso cautela. Muita cautela. O original estava ali, dentro da arca de gelados. Sentia-se o pavor a vinte quilómetros. O juiz ordenou-me que lesse a crónica em voz alta. Mas antes disso todos os presentes começaram a fazer cóceguinhas uns aos outros para que o efeito fosse menorizado.

Quando me dirigi para arca de gelados, ouviu-se um rufo. Talvez apenas dentro de mim. Peguei cuidadosamente na folha. O tribunal tinha todas as janelas fechadas. Todas as pessoas tinham suas bocas fechadas. Também o silêncio estaria de boca fechada. Agora vou contar como foi. Comecei a ler: ” era uma vez…”
E, dito isto, veio um vento que não se sabe de onde e levou a crónica para um lugar que ainda hoje não se sabe. No entanto, encontra-se pessoas por aí, tristonhas, tão afectadas ainda que nem conseguem trabalhar. Reclamando os seus direitos, pensões, reformas, indeminizações, enfim, coisa de português mesmo, de quem não chora não mama.

pôr a escrita em dia

Mais que os sonetos da Florbela Espanca - que deixam a minha querida alma num estado lastimoso -, o sexo, o depois de, inspira-me muito mais que um livro qualquer. Por tal saber, sempre procurei inspiração no colinho da Matilde. Enquanto ela, em suaves círculos me vai aquecendo os motores, eu, poeta de tactos percorridos, mentalmente vou fazendo a rodagem ao pensamento. Para uns, o após-sexo dá apetite, para outros dá vontade de dormir a sesta, já comigo, fico com gana de escrever. Das últimas vezes deu-me para escrever livros de contos infantis. Vocês sabem que sempre pensei nas crianças, mas à distância. A Matilde tem um filho que, quando vou lá a casa, quer brincadeira comigo, mal ele sabe que o que levo na ideia são outros tipos de brincadeiras. A Matilde, trinta anos no cose e descose relações, diz-me, vá lá, brinca um bocadinho com o rapaz. E, lá terá de ser, se quero o rebuçado tenho de me fazer por ele. Só que o puto é um chato do triatlo.

Por ele ficávamos manhã tarde e noite a brincar aos polícias e ladrões. Quando eu e a Matilde estamos naquele ponto em que as crianças não podem assistir, pronto, lá vem o fedelho bater à porta. Solto um berro, pira-te! E debruço-me outra vez sobre o assunto das duas montanhas. Depois mais outra vez a chamar pela mamã a perguntar-lhe onde está o pijama. E eu passo-me, perco oitenta por cento das vontades inerentes à minha profilaxia. Desculpem mas, há momentos em que me apetece meter-lhe cinquenta pastilhas elásticas na boca e, porra, que pare de me tratar por tio! Pois não há berlaitada que consiga dar sem que não seja interrompido. Vocês sabem que detesto ser interrompido!

O outro (para quem não saiba, o Fernando Pessoa), disse que as crianças são o melhor do mundo, mas disse-o porque nunca os teve. Pois se ele tivesse um fedelho por perto no momento em que escrevia as cartas de amor à Ofelinha, eu queria ouvir todos os seus pseudónimos acirrados. De facto, o sexo inspira, faz-nos dizer as coisas a modos cristalinos. Sem sexo a poesia não tem valor nenhum. Todo o poeta precisa de uma boa dose de inspiração, logo, tem de dar muito à manivela. Não é para me gabar mas, dantes, graças às minhas mãozinhas, eu vendia inspiração. Agora, tenho andado às voltas a escrever um romance, uma coisa sobre trocas e baldrocas de amor e sexo, o que me deixa deveras agoniado por não poder participar no enredo.
O certo é que não ando lá muito inspirado, há seis semanas que não escrevo uma puta de uma linha. E tudo desde que a Matilde me acusou da falta de talento para fazer amor com ela dentro do guarda-vestidos. Ela devia de saber que nunca fiquei curado daquela maldita asma que desde puto me põe a fazer vaporizações. Enfim, terminámos na página oitenta e três do Kamassutra e, desde esse fatídico dia que deixei de ter inspiração. O meu editor disse-me, inclusive, se eu quisesse uma mãozinha era só telefonar. Eu disse, não, não! Agora, ando por aí, à procura de ideias, visitando os meus álbuns de fotografia e a recordar a Paulinha que muitos sonetos me fez sonetar à luz do barracão do pai dela. A Teresinha que meu deu asas para que escrevesse uma ode às suas pernas lisas. A Joana, que relatou a sua vida nas entrelinhas dos meus cabelos do peito.

Haja um pouco de compreensão. Sou um poeta de pedigree, logo, faço um apelo às mulheres dos meus escritos, para que voltem, que o tamanho não interessa, prometo que vou largar aquela mania de sintonizar estações de rádio nos biquinhos delas, ou que, vendo bem as coisas até gosto de ser tratado por tio, pois eu preciso urgente é de uma musa (não dura mais que uma hora), para pôr a minha escrita em dia!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Foi numa consulta de rotina, quando nada se previa, o médico do morto disse-lhe, sem dar voltas à gramática:
- Você tem apenas oito dias de morte!

O morto, incrédulo, pois ainda pouco gozara a sua tão querida morte,  ao saber que daqui a nada vai viver, não conteve a sua revolta e deu um soco na mesa do consultório:
 - Doutor, tem que fazer alguma coisa por mim!
- Infelizmente, fiz tudo ao meu alcance e, no máximo de 

Oito dias, o seu coração começará a bater.
O morto saiu à bruta do consultório, entrou no primeiro bar e enfrascou-se com tudo o que havia de mais de noventa por cento de álcool, meteu-se debaixo de carros pesados, seringou-se, atirou-se de vigésimos andares, atado a frigoríficos, mas o destino estava traçado. Não conseguia ficar morto. Tentou falar com Deus a ver se pelo menos o extraditavam para o Inferno, mas, feitas as contas aos seus pecados, tal pedido fora deferido.
Ao oitavo dia, em sua casa, o morto esperava com agonia a chegada da Vida, gozando os últimos prazeres da morte, olhando o paraíso pela janela da sala, fazendo flash-backs daquilo que era e como era a sua vida lá em baixo, o ter de começar uma vida nova, enfrentar os seus credores, as ameaças... 
Quando a Vida lhe bateu à porta já o morto se tinha pisgado pelas traseiras da sua casa. E desde então anda à deriva no céu, por saber que o querem morto ou vivo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

assim se fazem os ateus

Foi num dia de ora sol ora chuva. Qualquer pedaço do céu daria um retrato. Mas todas as imagens de repente viram bruscas e sabe-se lá porquê.
O Jorge da Conceição foi levar o rebanho ao monte, subiu colinas inteiras, tocou com a cara no vento frio, há sítios em que não se espanta a solidão. Muito menos lá em cima. As ovelhinhas em pasto tranquilo, mamando erva da boa, os cavalos lá em baixo em liberdade, uma águia no alto supervisionando o ambiente, uns pequenos caracóis em banhos de sol, um coelho bravo que corre atrás de uma lagartixa que é manca. Enfim, a natureza no seu melhor. Jorge da Conceição sentado numa pedra fria, de realejo nos beiços tocando uma melodia nem assada nem frita, um som assim-assim.

Eu não falei mas, também havia uns insectos em acasalamento, umas flores espevitadas pela luz do meio-dia, uma cobra que de venenosa só tem o seu silêncio de andar. O ar é calmo e o pensamento também. Juntos fazem a harmonia. Adão e Eva assim se declararam um ao outro, se despiram sem ilusões ou manobras cinematográficas. Tudo é bom quando o nada se apodera.
Quem dera, diz o Jorge da Conceição no seu vago infinito de memória quando se lembra da última vez com a Isaurinda. Ele, despenteado com uma árvore em nortada. Ela, a mostrar como está crescida. E juntos percorreram as arábias um do outro, em suores escaldantes, que o põe a pensar no bom que seria se agora fosse outra vez. O realejo continua, como que chamando o queijo para dentro do pão. Só que aqui a fome é outra. Stop!

Eis que alguém surge ao longe. Um ponto a crescer no horizonte, em cada passo e gesto. Uma mulher que irá ter com ele, fazer amor com ele, ouvirá da boca dele todas as histórias. Afinal Deus existe, desabafa o Jorge da Conceição assim que topa que a mulher tem desejo igual ao dele. Pode até a dúvida ser um castelo que se desmorona, mas ele aqui será rei de uma qualquer aventura. Assim crê. Como acredita que este dia não terá fim nem não.
É preciso amar para não perder o ritmo sanguíneo. A deusa vem lá. Caminha como uma onça no seu recreio. Exibe a sua naturalidade com uma erva mansa. A poesia será um bom cobertor. Oxalá! O Jorge da Conceição sacode as calças, ajeita o colarinho, branqueia as palmas das mãos com um pouco de cuspo. Não me mandem parar este filme agora. Eu sou narrador mas não tenho nada a ver com isto. Não fui eu quem colocou a mulher no texto. Foi o Jorge da Conceição que no seu íntimo a desejou. O único sacrifício no amor é não se poder dar três ou quatro seguidas.
(Ninguém chora o seu próprio pulmão)
Eles cada vez mais perto um do outro.
(Porque somos animais tão lentos?).
O céu sente a aproximação daqueles dois corpos e lança uma chuva miudinha para compor o cenário. Visto daqui tudo é bonito. Ela acena. Ele também. A mulher tem um ar fresco de quem nunca roubou beijo a um outro homem. As suas pernas são de quem corre atrás de uma fantasia. Parece coxear um pouquinho, mas deve ser das irregularidades do solo. É alta como a que vira nos sonhos.

Jorge da Conceição pára de agradecer a Deus para puxar um cigarro e beber mais um gole do bagaço que o mantém. As horas deixam de ser horas para serem pássaros estáticos onde os podemos agarrar. O amor será entretanto. Daqui a dois ou três parágrafos. Tomara que sim! Quando, muito perto de se tocarem, de sentirem o que é quente, de saberem que no final a natureza irá aplaudir, seus lábios mexendo, como sede que morre, o aperto dos corpos, as mãos, as pernas, os olhos formando unidade, a mulher, que vem ligeiramente cansada de subir a alta colina, finalmente chegou perto do Jorge da Conceição, num respiro que deu para provocar nele uma pequena erecção.
Pede-lhe que a siga.
E voltam a descer a colina.
Agora os dois.
Talvez haja por ali uma casinha que melhor nos agasalhe, pensou o Jorge da Conceição.

A loucura mantém-se de pé. E o desejo nem se fala. Ela à frente, ele, ligeiramente atrás avaliando as curvas. Mas que curvas! Obrigado Deus! Terá motivos para cantar a beleza em todos os pores-do-sol. O silêncio diz mais que a verdade, mas nesta hora de anseios não chega. Quando ele ia para falar, com todo o seu sangue desperto, ela interrompeu-o e, em apressada e preocupada voz, falou:

- Rápido, o meu marido caiu do cavalo! Precisamos da sua ajuda!

E Jorge da Conceição, fulo como uma galinha excluída da cobrição do macho, olhou o céu e resmungou por entre os dentes: é por estas e por outras que assim se fazem os ateus!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Crónica dos Quase

Vocês nem queiram saber, mas quase que não escrevia a tempo esta crónica, pois quando estava para atravessar o atlântico numa jangada, ainda a poucos metros da encosta da Apúlia, quase que era apanhado por uma baleia branca. Depois vim a saber que era um mergulhador à procura de vestígios da sua última relação com uma ostra.
Por isso decidi voltar.
E saibam que quase eu não me apanhava em casa.
Por jeitos eu tinha ido comprar fósforos e, pelo caminho de Santiago, quase me cruzei com um bombista da Al-Qaeda que, por sorte minha, deu-lhe uma súbita vontade de urinar.
Você pode nem acreditar, assim que acendi um cigarro a Cláudia Shiffer veio-me pedir lume. Senão era ela, quase que era. Por ser tão loira que fiquei encandeado na sua beleza. Há quem diga que nem o Photoshop faria melhor. No outro dia quase morri. Sério! Assim que o dentista me disse quanto era. Ó, o quanto desejei de novo a dor de dentes. Saí do consultório com uma neura que quase me dava o tal treco que o psiquiatra vem anunciando.

Se não fosse um número e uma estrela no euromilhões eu quase que ganhava muitos amigos. Tantos que eu quase que nem os saberia contar nem saberia de onde vieram, assim tão do nada.
O meu amigo Pedro quase que apanhava a sua namoradinha com outro, o azar dele é que manca mais que a minha avó e demorou muito a lá chegar. Ela sempre foi muito largada. Inclusive uma vez ela me quis beijar mas, enquanto eu me lembrar da ferradela no queixo, jurei nunca mais. Se não fosse aquele lance, o Benfica quase que se consagrava campeão nacional. Tive pena. Tanta pena que acabei por ganhar alergia e, sempre o meu clube perde, espirro até dar com pau.

Depois quase que caí de cu quando me disseram que a do terceiro esquerdo em tempos fora domadora de jibóias. Passei a ter mais respeitinho, não fosse eu acordar com uma cima do papo. A minha vida é isto e quase que era aquilo se não fosse no outro dia descobrir que afinal aquela era aquele. E logo eu que sou macho bem comportado quase tropeçava nos seios dela, aliás, dele. Por sorte naquela cena de pancadaria não me feri, só tive foi de dar o nome completo à polícia.

Ai amor que quase torcia um pé. Ai mãe que estou quase sem dinheiro!
Ó mãe, o pai quase me bateu! Eu quase que era príncipe, isto é, se o meu pai fosse rei desta merda toda. Sabias que o André quase nasceu preto?
A bebida quase me fez mazela no fígado. Ela quase me sorriu. Os sapatos quase me serviam. Quase que ganhava a aposta na corrida dos cavalos, se não fosse ao número sete dar-lhe um ataque de cio.
Ele quase que dizia não no dia do casamento. Eu quase que dava em inteligente se na quarta classe não tivesse sido chamado para a tropa. A Mariana quase se matou de amor pelos meus beicinhos. Eu quase que não nascia, foi preciso a minha mãe dar um grito, com um insulto lá metido, quando o árbitro assinalou fora-de-jogo num lance que podia dar golo ao Benfica.

No outro dia quase me borrei nas calças. Ela quase que ia virgem para o casamento!
Patrão, estou quase a chegar! O país está quase-quase a andar para a frente.
Aquele carro quase que me limpava o sebo. Tenho muitos, mas mesmo muitos quase amigos. O que está a dar é ser quase. Chiça, ela quase que dizia que o filho era meu.

Foi por quase, pá!
Se eu não tivesse ginástica suficiente, ela quase que me partia a espinha. Ai mulher que aquele bicho quase me ferrou! Sabes, estive quase a mandá-lo pró carvalho. Ui que a bola quase que entrava na baliza. Ai que o mar quase que me engolia. Ai Maria que trabalhar na França é quase o demónio.
Ai que quase lhe dava uma coisa má. Ai que o meu primo esteve quase a dar o badagaio.
 Ai que o primeiro-ministro quase que ia preso!
O Paulo Gonzo também disse: dei-te quase tudo (ou dói-me quase tudo?). Por estas e por outras é que eu quase escrevia uma crónica.


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Às quartas estou no Paulista

Eu, Jorge da Conceição, filho de pais que nunca deram a cara à paternidade, com talento para o desenrasque, sempre à procura que uma luz me batesse, com uma história de vida que cabe em três volumes, de tantas voltas que dei ao mundo que acabei sentado numa mesa a dar lições de moral.


Aos trinta e cinco anos decidi estabelecer-me por conta própria. Montei negócio, sem ajuda estatutária e pouca solidez financeira já que os bancos parecem não entender lá muito bem a minha linguagem, pois quando falo em receber eles falam em pagar, e não há meio de sairmos desses dois termos.

Mas, com as minhas raras economias, lá investi num negócio que acredito que ainda possa vir a dar. Que era: policiamento de textos e crónicas de jornal.
A ideia não era má, dado o número de erros ortográficos e abuso de semânticas.
Apenas tinha o trabalho de ler todos os jornais, incluindo este em que o flávio silver escreve, e aplicar coimas a todo e qualquer escritor que maltratasse a nossa querida língua portuguesa.

Falei com alguns jornais e aceitaram a ideia como válida. Afinal de contas o que está em causa é a boa literatura. Com ou sem ajudas, lá comecei a apontar todos os defeitos gramaticais, as vírgulas fora do lugar, as exclamações quando no fundo seriam interrogações.
Bem, só num texto que policiei tinha o meu salário de Maio garantido.

Infelizmente, e como em todos os negócios, surgiu concorrência, forte, muito forte. Com especialistas e doutores de várias espécies, munidos com altas lentes de aumento para não deixar escapar letrinha nenhuma.
Inclusive, começaram a patrulhar textos meus, poemas antigos, pedaços de crónica deitados ao lixo mas que ainda perduram em valetas e, as coimas começaram a aparecer lá em casa. Com tantos dígitos que pareciam versos de amor.

Como não consegui pagar, decidi fechar a empresa de policiamento de textos para tentar sorte a tocar violino em jantares românticos.
A coisa ia mais ou menos. Até ao dia em que na mesa número sete estava lá a minha ex com um escritor de romances quadrados, o Bebécas. Não consegui evitar e dei-lhe com o violino mesmo nos parentais. E vim embora, a pensar no que seria a minha vida dali em diante.

Depois decidi ser conselheiro matrimonial.
Depois experimentei, sem dar em nada, encantador de serpentes.
Fui caçador de gambuzinos.
Vendi tremoços na rua.
Fui palhaço sem graça.
Lutei boxe em praça pública.
Fiz de cobaia científica.
Toquei reco-reco em banda desbandada.
Fiz de pomba branca num filme de terror.
Fui pagador de promessas. Ia a todas. Já que os outros não podiam, eu mesmo ia, passo a passo, com vinte latas de cerveja na mochila, mas que se esvaziavam a cada dez quilómetros, a cada cinco quilómetros, a cada vinte metros, até à última gotinha, para depois olhar para o céu e dizer: Senhor, alumiai meu caminho.

Era noite, e do nada surgiu uma motorizada de luzes enraivecidas que me encandeou e fez-me cair de borco. Gritei: Senhor, não era preciso exagerar na luz!
Cinco dias no hospital e, felizmente fez-se luz na minha vida, assim que o médico me disse: a sua reforma será antecipada. Você não pode mais fazer esforços.

Ainda ontem levei uma injecção no cu. Andei coxo por mais de meia hora. Deram-me umas vitaminas para os ossos a ver se a coisa começa a rolar. Os meus trinta e poucos anos já não me permitem grandes variedades nocturnas.
Assumo que sou mais caseirinho, mais do tipo de chinelo de quarto, prontinho para a cama. Oiço mais fado que música rock. Qualquer bocadinho de pão já satisfaz a minha fome. A minha alma está mais ligada às questões da natureza e ao chilrear dos passarinhos.

Com a luz que me bateu, aprendi a ler e decifrar estrelas, e é disso que me safo, a deitar cartas sobre uma mesa de café, a antecipar o futuro de muita gente. Muita gente como eu, que se quer encontrar mas falta-lhes o talento de adivinhar.
Portanto, se tem filhos na droga, ou você mesmo, bebida, psicoses múltiplas, a vida por um fio, maus-olhados, rumores na carne, coceira na testa, impotência indesejada, apareça, às quartas estou no Paulista, não custa mais que uma nota de vinte euros, livrar-se-á dos seus problemas, e eu, dos meus.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Comissões

Foi num dia em que, se não fosse o final da história, teria sido especial. Nunca fui de muitas sortes nem tão pouco de tantos azares. A vida corre sempre igual e eu já me habituei a que assim seja. Um passo para aqui e dois para acolá. 
Era uma manhã com um nevoeiro um pouco menos que cerrado, a minha cara meia estremunhada pela noite mal dormida, as minhas pernas acusavam inícios de cansaço causados pela...bem, acho melhor não dizer. Seguia eu pela avenida fora. Seguia o caminho dos que passam o tempo a preocupar-se com a posição do sol para não chatear muito o corpo mal habituado.
Ao longe, vejo uma rapariga bem esticadinha, pescoço nu, blusa com dois ou três botões desapertados, com um ar estudantil, de quem quer aprender algo mais do que os livros da escola. À medida que me aproximava, a sua beleza chamava-me. Ou parecia que me chamava. Há dias em que as miragens me parecem verdadeiras. Mas, mantenho sempre a dúvida como hipótese. De facto não, ela acenava para mim. Como pode?! A chamar por mim! E eu que pouco tenho dado à sociedade, que nunca me livrei de relatos mal contados sobre a minha pessoa relacionados com zaragatas e empréstimos pontuais! Não pode ser!, pensava eu com os meus botões de metal ferrugento! No entanto, a uma boa dúzia de metros, a minha certeza estava certa, como quem diz: a rapariga está mesmo a chamar por mim. Ui! Que terei de especial nesta manhã?! Exclamava eu baixinho, como se tivesse um grilo dentro do bolso do meu casaco a quem dar de comer! De facto sim, ela esperava que eu me chegasse bem perto dela. Porventura está perdida aqui nesta ciadade ou quererá uma informação sobre que direcção há-de tomar para ir para a outra ponta da cidade. Ou não. Ou, talvez, hum, sabe o que quero dizer, não sabe? Uma miúda, cheia de entusiasmo, com vinte e poucos aninhos a subir-lhe pelos cabelos, por enquanto lisos, andar desinibido, sem pai, talvez, sozinha neste mundo, sem voz amiga para lhe elogiar o peito crescido. Pensava eu na minha moral de simplório vivant. Já tinha ouvido falar por amigos meus que tais situações acontecem. Pelo menos uma vez na vida. E, sortes assim, há que aproveitar! Outra coisa, prostituta não era, porque essas, dormem até mais tarde.
Endireitei os colarinhos duma camisa que me custou um quinto do salário, dei um jeito ao casaco que me fora oferecido no Natal de 2003, olhei os sapatos e vi que estavam em condições, respirei fundo e, finalmente, cheguei perto dela, com o meu ar característico de sonhador nato. Tão perto que, se viesse mais um pouco de vento pelas minhas costas era capaz de a beijar mesmo ali. Ela olhou-me com encanto tal que, mais um poucochinho a fixar-lhe os olhos, ficaria tal serpente encantada. Nunca me acontecera um cenário daqueles. Aliás, nem me vou adiantar mais com pormenores e vou passar à conversa propriamente dita. Então foi assim. Soltou um olá com todas as letrinhas, a sua boca abriu-se em câmera lenta e eu, ex-caçador de ostras, respondi-lhe em igual teor sentimental. Começou por me falar das sucessivas greves do país, o que estranhei, mas, ainda assim, acompanhei-lhe o raciocínio. Inteligente que a miúda era!, intuí, no meu passo doble mental esperando que a cartada do convite para ir a casa dela acontecesse nos entretantos.
Depois, cravou-me um cigarro, eu dei-lhe e pensei "isto está correr bem!". Falou-me de outras coisas que eu, sinceramente, não fiz caso, uma vez que a minha atenção estava compenetrada no seu colar com uma pedra reluzente e achatada que, com certeza, lhe esfriava o peito. A minha imaginação atingia assim os trópicos e sub-trópicos. Os minutos esvoaçaram. O nevoeiro sumiu-se num clique. Pessoas passavam bem perto de nós e eu, nem xi nem mi. O destino tem destas coisas e eu já merecia isto há muito! Ao fim de um breve questionário sobre o que faço e o que não faço, eis que chega o momento. A miúda convidou-me a entrar numa porta mesmo ali ao lado. E eu, como sou de raça pura, aceitei, sem meio mas. Ela foi na frente, e eu, numa legítima marotice, tentava despi-la mentalmente. Pudera!, aquele pedaço havia de dar para muitas refeições! Depois de ter entrado por uma porta que se encontrava aberta, chiça!, deu-se o pior do acto da cena. Saiu de uma outra porta um fulano bem engelado, que eu esperava bem que não fosse nem pai nem tio dela, estendendo-me a mão com um sorriso de criar vítimas a sério. Mandou-me sentar e eu sentei. Mandou-me pôr vontade e eu pus-me. Depois de ter mexido nuns papeis que tinha em cima da secretária, assinando outros que estavam agrafados, voltou-se para mim e disse:
- Então o senhor quer fazer-se sócio de uma comissão de trabalhadores?! São só quinze euros!
Ups! Ouvido isto, fiquei emudecido por uma longa fracção de segundos. Olhei bem o interior da casa, avaliei a situação da porta que, miraculosamente, se fechara num abacadabra, avistei a cidade pela janela e, já a miúda estava lá em baixo na rua dar boas vistas a outros tipos distraídos como eu. O que me valeu foram os quinze euros que havia pedido emprestado ao tipo que me traz o correio a casa. Que se dane!, quinze euros era capaz de não chegar para os curativos! Melhor assim. Posso até não contribuir para a produção nacional, mas pelo menos ninguém me pode dizer que não zelo pelos trabalhadores!

sábado, 19 de dezembro de 2009

s'eu fosse deus por meia horita...

Se Deus fosse uma mulher, o céu, nesta época natalícia, estaria cheio de luzinhas e fitinhas coloridas e chocolatinhos engalhados nas nuvens. Mas Deus é do sexo masculino e gosta das coisas rudes.

Foi Deus quem criou o mundo, e quem criou Deus? Bem, aviso já, eu não fui, aliás, nem sei se talento teria para tanto, além de que tenho a vida muito ocupada e não teria tempo sequer para engendrar tal preciosidade. Não duvidemos da Sua existência, nem da minha, nem da que vai vir a seguir.

Todas as existências são dignas de ser rotuladas. A mim, por exemplo, já me chamaram de tudo, menos de Deus. Ainda bem, porque desse modo teria uma carga imensa nas costas.

Não me imagino trabalhar 24 horas diárias, sem vencimento, sem intervalo para fumar um Ventil, ter que ajudar o próximo quando ele está muito longe, avaliar dossiers de pecados e decidir qual sentença a dar, lançar raios lá de cima para assustar os automobilistas que vão acelerados. Ter que ter um dia por semana para falarem de mim sem consentimento.

Portanto, eu não daria um bom Deus, a preguiça mata-me aos poucos e, inclusive, o médico disse-me que isso não se trata com aguardente.
Mas eu insisto, e tenho fé que os bagaços me lavem a alma de certas e determinadas feridas que surgem do nada, e que categoricamente se alojaram algures na minha medulazinha. Só o bruxo é que anda lá perto de me dizer a verdade, mas esse, pede-me um dinheirão pela consulta. Portanto, quando passo à sua porta, acelero o passo, em estilo rock n’roll.

Depois, porque, quando não há culpados no meio de uma cena, Deus passa a ser o presumível autor de todas as culpas. Quem foi que fez este trabalhinho sujo? Quem mandou este tsunami? Alguém diz: foi Deus! Quem pegou no dinheiro dos contribuintes? Foi Ele!
Vedes como tenho razão. Nos dias que correm ser Deus é uma tarefa que nos pode custar meia dúzia de depressões malignas. Só alguém com muita capacidade mesmo, e possuindo estofo para aturar as manias dos homens, consegue dar despacho à coisa.

Eu não estou para isso. Talvez daqui a vinte ou trinta anos, quem sabe, se o lugar estiver vago, até que me posso candidatar ao trono, mas até lá vou me envolvendo em aventuras e desventuras, com esta e com aquela, um misto de prosa com poesia, com contas a pagar e contas a receber.

Definitivamente, ser Deus traz poucas recompensas. Primeiro, não se tem acesso a entrar numa discoteca, a não ser que se barbeie. Segundo, sabe lá Ele distinguir um arroz de pato de um arroz de cabidela. Certamente come tudo sem paladar. Mas, esperem lá! Ah, se eu fosse Deus por meia horita, juro que o F.C. Porto havia de ficar vinte anos sem ganhar nadinha, para ver o que é bom para a tosse. Desviava todas as bolas que fossem à baliza do Benfica. Estou farto de levar tanga!

Depois, engendrava uma diarreia nacional para todos os políticos deste país, era assim que os veríamos com olhinhos de calamidade. Ehehe, e rir-me-ia também ao ver os lutadores de boxe aos abraços e beijinhos. Ora bem, vistas bem as coisas, até que seria divertido estar no papel de Deus. Basta um pouco de imaginação e o que não falta é bons momentos para se distrair.

Imagino assim de repente, com aquela capacidade de omnipresença, espreitar as contas do país e ver quem tirou mais. Olhar a cara de um, que nos parecia dos nossos, e espantar: também tu!
Ou então, assistir aqueles diálogos entre árbitros de futebol e presidentes de clube. Até que seria divertido ver alguém a assinar um cheque e a perguntar: por quanto é que fica um 2 a 0? E espetar um caguefe ao Bin Laden? E achar a Madelleine e ficar com o dinheiro da recompensa? E proibir que as mulheres se vistam?

Mas como isso não é possível, limito-me a ser eu, euzinho da silva, a comer gato por lebre, até que um dia chova no meu quintal notas de 500 euros. Meia horinha só. Não peço mais. Acha que é pedir muito? Então, bora lá rezar com força.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

cheguei; e o mundo de repente se fechou