quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Composição:


O meu primeiro dia de aulas

   
O meu primeiro dia de aulas não foi nada de especial. Como prometido, por ter chumbado de ano, furei os pneus da frente à cabrona da professora de inglês e fiz uma chamada anónima para escola a avisar que a mãe do Caixa D'óculos do professor de história dera entrada no hospital com um AVC para ele se meter no carro a correr e, consequentemente, ter um feriado. Cheguei à escola e prestei contas com o Bernardo, um queque que fede a vaidade, por não me ter deixado copiar no exame de matemática. A Joana veio pedir explicações por não lhe ter atendido o telemóvel durante as férias e, como resposta, abracei-me à Margarida, que ao menos essa faz-me os deveres e não me incomoda com o aparelho dos dentes. Antes de entrar na sala de aulas, dei um cachaço no Gordo para que pare de se lambuzar com caramelos espanhóis.

Também apertei os testículos ao Histórico que no ano lectivo anterior andou a fazer queixinhas e a dizer que eu fiz batota no jogo do braço-de-ferro com o Lunetas. A parola da Tina, que em tempos me fez uns manguitos, por se queixar ao director que eu andava a espreitar os balneários das raparigas, à mínima oportunidade, esmigalho-a. Estando a turma toda sentadinha, entrou a nova professora de ciências da natureza, com as pernocas todas à mostra, uns lábios vermelhíssimos e carnudos, que me deram logo uma ideia para lhe baptizar com uma alcunha. Cada um dos alunos fez a sua apresentação. E fiquei a saber que a da carteira da frente, onde normalmente estão os escovas, graxistas, tem os pais separados. Logo ali criei o boato de que o pai dela fugira com o tipo do supermercado porque, dias antes, apanhara a mulher em flagrante com a cunhada que, por sua vez, tem um filho lingrinhas a frequentar esquinas no Barreiro. Depois veio o toque de saída e, na confusão, fiz um calço ao Borboleta que deu de queixos no chão, a sangrar como um porco. Apontei culpas ao Sardento, que é tido como o pestinha, apanhando assim dois dias de suspensão. 

No recreio fui dar uns toques à bola e, na distracção de todos, assassinei a bola com uma canivetada e pus-me a Leste. Fui até à biblioteca dar uns arrotos e acusei os marrões de falta de sensibilidade. Vendi dois cigarros ao Espinhoso e alertei-o pela décima vez para não estudar tanto que faz ganhar pontos negros. De seguida tive um momento lúdico com a Margarida na parte de trás do ginásio. Tocou para a aula de português. Ó, como eu adoro as aulas de português! Dizem que a língua portuguesa é traiçoeira, mas não é. Às vezes é tudo uma questão de sotaque, de saber colocar bem a boquinha. O professor, um tipo novo, ar de quem faz apostas em corridas de cavalos, revelou ser adepto do estilo poético Haikus. Gritei, Hai quê?
A empregada, que não era nada de se deitar fora, trouxe uma circular a anunciar que este ano iam começar as aulas de Educação Sexual. Fiquei logo excitadíssimo, íssimo, íssimo, a perguntar onde, quando e a que horas. Terminada a aula de português, e saber que ia levar com o cego do Camões outra vez, fui ao bar perguntar se tinha unhas de porco. Disse-me que não. Foi o que eu suspeitei...Na primeira aula de físico-química, antes do professor entrar, ensinei os restantes alunos a destilar uma pedra de haxixe, assim como a maneira mais eficaz de esconder os vestígios dos nossos pais. Na aula de religião e moral foi-nos ensinado que o abraço é muito importante, e que uma apalpadela no rabo pode ser pedagógica. No primeiro dia de aulas os livros cheiram a novo, as salas estão lavadinhas, os mictórios cheiram a rosmaninho, e nas portas das cagadeiras escrevem-se os primeiros poemas de amor, como: amor, espero por ti na mata.

Todos os alunos estão sorridentes, entram com o pé direito. Só a Maria Ratona, por ser perneta, é que não teve alternativa. Na aula de educação física os rapazes ficam em pulgas, fazem o cerco às que trazem cuequinha fio dental, e eu, fartinho de assar frangos, cerco as que não trazem nadinha. A Mirolha estuda muito mas não vai lá. Já lhe disse que tem que meter uma coisa na cabeça, ou vice-versa. O senhor da portaria tem um quê paternal, nomeadamente quando diz: anda cá ao papazito. No fim das aulas fui para casa, a pé. Passei rente ao muro do Vilas e fanei-lhe umas uvas. Lancei piropos às moças das fábricas e cuspi no vidro lateral da camionete. 
Chegado a casa, sentei-me para jantar, a ver o telejornal. E o meu pai, todo salazarento, que acompanhava a notícia de violência nas escolas, disse em voz alta e agressiva: A culpa não é dos alunos. A culpa é dos cabrões, pataratas dos pais que não sabem dar educação aos filhos! Eu abanei a cabeça e concordei.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Pequenas memórias conventuais

A minha vida nunca mais foi a mesma desde que me mandaram embora do coro por falar obscenidades. Ninguém entende um pobre poeta, este gentil colaborador de revistas e jornais a troco de uma bucha. Voltei ao desemprego, à malandragem, ao sucesso entre os amigos. Eles gostaram de me ver e saudaram-me como se eu fosse uma criatura adorável. Feitas as contas, já lá vão vinte anos desde que fui parar ao seminário a ver se miraculosamente me endireitavam. Tenho saudades das freirinhas, dos bolinhos do céu, de lhes apalpar o rabo sem que elas imaginassem a intenção do acto. Mas não tenho saudades do Irmão Paulo, quando, à má fila, lia versículos bem pertinho do meu ouvido. Esse papa-hóstias, que estava bem era no Cambodja a ser...deixem para lá! Por sorte divina, salvei-me a tempo de não ser experimentado. Também tenho saudades de apanhar a Irmã Manuela a mijar de pé, no jardim, a fingir que cheirava as flores enquanto trauteava a Música no Coração.
Aprendi muita coisa por lá: a fazer a cama, a tomar banho diariamente, a enrolar charros, a esfregar o chão, a tocar prá missa, a reparar telhados, a amar a próxima...
Bem, pelo menos engordei com as batatas a murro que, quando não havia batatas, murro havia sempre. As freiras benziam-se assim que me viam. Achavam que eu era um pequeno demónio capaz de convencer um santo a pisgar-se da parede. A culpa não é minha. Fui abandonado ainda antes de nascer. Não sei como é que a minha mãe conseguiu uma proeza dessas, mas conseguiu. E vi-me sozinho no mundo. Achado num cesto à porta da taberna do Andrade. Andei de família em família. Os meus últimos pais adoptivos devolveram-me à rua. Mas graças a Deus tiveram o cuidado em me deixar de novo na taberna do Andrade, com um bilhete a dizer: não se aceita devolução!

Até que algum lambe-cus teve a infeliz ideia de me levar para o seminário. As noviças gostavam muito de mim, tratavam-me por menino e faziam-me festinhas. Mal imaginavam elas que havia um anjolas a crescer por dentro, com vontade de rachar-lhes o céu. Quando comecei a ganhar barba rija as coisas complicaram-se. As minhas mãozinhas indomáveis tinham de ficar quietas, e tinha dois padres austeros a tomar conta de mim. Sobretudo, quando as mui formosas freirinhas iam apanhar frutos das árvores e pediam-me para segurar no escadote. Ai de mim se lhes contemplasse as cuecas. Ia de joelhos até ao confessionário. Hoje sei porque me doem as dobradiças das pernas nas mudanças de estação.
Fiz a escola toda e fiquei a saber muitas coisas, nomeadamente sobre anatomia, já que cedo me revelei entusiasta em mexer em órgãos e afins. Um dia, mostrei a pila às meninas do coro, e elas, doidas como galinhas, puseram-se a cantar o tirolês. Com esta brincadeira levei com um processo em cima. Não na pila, mas sim na minha pessoa. A Madre chamou-me aos seus aposentos com um grito histérico de longe. E lá fui, triste e magoado, com a incompreensão do tamanho do mundo. Ordenou-me missionário em terras de África. Não tinha como desobedecer, interpretei isso como um chamamento, uma renovação espiritual. Só que, assim que me vi no meio de tantas negras rabudas e bonitas, foi o que foi. Acho que a minha maior missão por lá foi aumentar à taxa de natalidade. E novo processo contra mim. O que achei injusto. Contestei, invocando o amor sem protecção sendo a minha grande Obra.

Tive um regresso forçado e a Madre recebeu-me de vassoura na mão, que julguei que seria para bater, mas não. Tive de varrer dois hectares de terreno, inclusive as retretes. Foram vinte dias do pior. A rezar por mim abaixo. O certo é que me tornei menos zaragateiro e mais sociável e, como prova disso, foi a organização da Festa de Natal. Tratei de tudo sozinho, inclusive o convidar umas boas renas disfarçadas, que deram animação àquela pasmaceira toda. Eram duas húngaras e duas eslovacas. Só mais tarde tive de justificar a falta de vocação delas quando chegou a hora de cantar na missa do galo. Estava-lhe pelos cabelos. A Madre superior disse-me estar na altura de ir. De me fazer à vida. E logo naquele empírico momento, em que a minha linda vocação estava prestes a vir ao de cima. 

Tive de ir pregar o evangelho para outro lugar. Ainda ajudei à missa em duas ou três paróquias mas o resultado era sempre o mesmo: rua daqui p'ra fora, seu porco, tarado! Enfim, a vida é dura e a incompreensão mais dura o é. Tenho fé que as coisas mudem, que Deus ponha mão neste poeta gentil, que é dado por um judas. Bem, pelo menos salvam-me os amigos que, lá por ter andado vinte anos em instituições religiosas, julgam-me um iluminado. É certo, os meus amigos gostam de mim, abraçam-me quando me vêem, pedem-me a bênção, sabeis porquê, caríssimos irmãos? Porque sou perito em conversa fiada! Ámen!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Por falar em crise

Eu estava sentado na esplanada a ler uma revista sobre as estatísticas do divórcio. O sol estava muito perto de mim. Encontrava-me numa das praias do sul cujo nome não me convém referir por motivos pessoais. (adoro os motivos pessoais!) 
De férias, tinha as moças de biquíni para me alegrar. Um batido de sumo natural com chapeuzinhos engalhados fazia-me acreditar na vida eterna. No mar havia surfistas que, quando caíam da prancha, eu imaginava tubarões a fazer-lhes cocegas nos pés. Entretanto tinha pedido um pires de camarões e uns quantos lagostins para o estômago não me acusar de irresponsável. Saboreei cada perninha do marisco ao ponto de deixar água na boca às pessoas que passavam. O hotel onde estava instalado foi escolhido pelo chefe da minha empresa, como recompensa do meu desempenho. Era um hotel cinco estrelas, com campo de ténis, campo de golfe, piscinas, massagens privadas, ginásio, etc, frequentado por jogadores de futebol, artistas de cinema, escritores em fase de expansão, etc. Fiquei na suite presidencial, com direito a tudo e mais alguma coisa. Mas dizia eu. Estava sentado na esplanada, a adoçar o bico, ora com o melhor vinho das adegas, ora com olhares sobre as ondas. Nisto, uma estrangeira, daquelas de capa de revista, deitada na areia fina da praia, acenou-me. Certifiquei-me que o aceno era para mim e, depois de confirmado, acenei-lhe também. Fui ter com ela. Não paguei a conta porque estava tudo pago. O meu chefe havia dado ordens supremas para que todas as despesas fossem encaminhadas para a empresa. Incluindo diversão. Bem, quando cheguei perto da moça, aí vi que ela era a filha herdeira do dono do hotel. Confesso que fiquei um pouco tímido, mas, quando me pediu para lhe passar creme protector solar nas costas, perdi logo a timidez, e dei a vez a um tipo cheio de experiência. Estava nas sete quintas. Quem diria que logo no primeiro dia de férias tal sorte me iria calhar. 
Após uma boa dose de conversa, fomos dar uma volta no iate que tinha à minha disposição. A meia légua da costa, ela tirou a parte de cima do biquíni e mostrou que tem ido ao ginásio. 
O mar estava calmo, uma leve brisa fazia o corpo pensar, e um grupo de golfinhos exibia-se para as nossas máquinas fotográficas. Fizemos mergulho e visitámos corais. Foi lindo!
O iate era daqueles que muita gente daria a vida só para pôr um pezinho em cima. Bar, cama, hidromassagem, LCD. Até uma orquestra sinfónica havia. Eram uns tipos contratados para dar mais feeling à coisa. Foi uma tarde em cheio! Salvo erro, fizemos amor umas oito vezes. Oito não, talvez seis, ou três, ou, esqueçam. Fizemos amor. É só do que me lembro. Ainda recebi uma chamada do chefe a perguntar se estava tudo bem. Que não me poupasse em nada. Ah, e o iate ficaria para mim. 
De tão feliz, atirei os músicos à água e pus-me a dançar Fox-trot mais a Gabriela, até a noite chegar. Dali, metemo-nos no Porsche e fomos de volta ao hotel onde um buffet do melhor e do mais sentimental esperava por nós. Enquanto nos deliciávamos com caviar e champanhe francês, um grupo de bailarinos exibia uma dança entre cada prato. Falámos sobre projecções futuras, possíveis alianças, e quem sabe, comprar uma ilha e criarmos os nossos filhos no mais conceituado colégio de Nova Iorque. Ela disse que sim, eu sorri-lhe para o decote. Quanto mais sorria, mais o decote se abria. Por fim, uma gargalhada. A noite estava quente. O perfume dela entrava-me nos ossos. Mais à noitinha, participámos num leilão de arte e, como estava de espírito aberto, adquiri um quadro de René Magritte por uns poucos milhões de euros para oferecer à Gabriela, como prova do nosso amor. Ainda estivemos uns minutos à conversa com o rei da Prússia. Pessoa culta, que elogiou o bom gosto do meu Rolex em ouro maciço para, de seguida, dali, irmos aconchegar os corpos num colchão de água. O chefe voltou a ligar a lembrar-me que férias são férias. Ligeiramente exaustos, não fomos além das duas quecas seguidas. Restava-nos o sono, embrulhados em lençóis de seda perfumados. 

O dia seguinte prometia aventuras pelos céus num jacto privado. Visitar o Jurassic Park, montados num camelo; fazer parapente, participar em banquete, e por fim, yoga. E foi ao som de um qualquer prelúdio de Bach que adormecemos e sonhámos com o milagre das coisas. Nisto, ainda com sabor de amoras na boca, alguém bateu à porta e, sem pedir licença, entrou. 
De olhos fechados, e um pouco de remela a impedir que os abrisse imediatamente, imaginei uma loira a trazer o pequeno-almoço à cama mas, assim que um balde de água fria caiu sobre mim, gritei: merda, gaita! Era o cabrão do meu chefe aos berros, gesticulando ferozmente, a enxotar-me com os pés para olho da rua, por estar a dormir no local de trabalho em horas de trabalho. E assim, “Gracias a la Vida”, era uma vez um sonhador.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Tal cão, tal dono


Sei que não é hora nem momento, nem sei se a paciência está em bons dias. Detesto deixar as coisas pela metade. Ter de subir as calças só porque palpita que vem aí o pai dela. Mas a vida é assim, um tira e põe, tira e põe. 
Estou condenado a nada. 
A Judite quer-me a tempo inteiro, como se amar fosse um ofício, uma declaração de princípios à qual não podemos mudar uma linha. Meus amigos, o amor quer-se cavalo à solta. Que seja assim. Estou marimbando-me para os cavalos. Há dias recebi uma queixa em casa, não por carta, não pela Internet, mas pela boca dos vizinhos. Que o meu cão anda a provocar desassossegos nas cadelinhas, ora vejam lá. Por jeitos, salta os muros para lhes chegar. Em suma, as cadelas estão em vias de ficarem todas prenhes. E, caso isso venha a acontecer, alguém terá de ser responsável pela ninhada. Neste caso, eu. Já lhe tentei chamar a atenção mas, que querem, o cão não me dá ouvidos. Está viciado na coisa. Que, ainda por cima, vejam lá o meu azar, está apaixonado pela cadela do quinto esquerdo. E foi precisamente a dona da cadelinha do quinto esquerdo que no outro dia veio tocar à campainha. Fiquei logo chateado. Primeiro, porque nesse dia perdi de ver as Tardes da Júlia. Segundo, porque não consegui pôr a gravar as Tarde da Júlia. E terceiro, por causa das duas alíneas anteriores. No entanto, assim que abri a porta, ao topar aquele cabelo loiro, aquelas pernas esguias, a fazer lembrar as moças da passerelle, ganhei logo outro jeito, uma afabilidade à Pai Natal, e disse-lhe: 

- Sim, faça favor de dizer.
- O seu cão é um malvado!
- Como assim?
- Anda sempre em cima da minha cadelinha. Ou lhe dá educação, ou então, o melhor é castrá-lo!
- Deixe estar que resolverei isso de outra maneira.

Não tive outro remédio senão o de chamar o Bobby a um canto e dar-lhe uma repreensão valente, assim como levar a cabo umas sessões espirituais para lhe limpar a mente de certas depravações. Duas semanas foram suficientes para que o Bobby amansasse das ideias. E, para sorte dele, não foram precisos remédios para lhe cortar os ânimos. 
O meu Bobby dedicava-se agora à leitura e a construir aviõezinhos de cartão. Tornou-se um exemplo de como se vence na vida com a força exclusiva da vontade. Se continuar assim, ainda há-de vencer umas olimpíadas de matemática. Começou a frequentar bibliotecas e pastelarias requintadas. Entrou em celibato e as queixas deixaram de surgir. Era um senhor cão! Os dias foram feitos nesta monotonia, sem grandes aventuras, grandes voos, grandes quimeras. A Judite voltou cá para casa, e com ela, as malas do passado. Festejámos a vinda dela em cima da máquina de lavar. A tal que tem o motor meio avariado para aproveitar a trepidação. Oh, como foi bom recordar! Enquanto a Judite fazia umas limpezas em casas particulares eu ganhava algum a colar cartazes de publicidade pela cidade ou a pôr folhetos nos vidros dos carros. Por vezes fazia-o de noite, pela fresquinha. O Bobby entretinha-se com a sua paz. A vida devagar sempre rola com mais cautela. À Judite deu-lhe para embirrar com o cão, que é um pasmaceiro, que não se sente à vontade em fazer amor comigo pois o danado do cão repara em tudo, põe-se a olhar com aqueles olhos fundos. Chegou a uma altura que foi do tipo: ou ele ou eu. Tinha ali um bico-de-obra dos diabos. O Bobby assistiu à conversa e decidiu por conta própria sair de casa. Dei pela falta dele numa manhã. Procurei por várias ruas e não o encontrei. Pus uns panfletos a dizer «Procura-se, dá-se recompensa». Pois este cão era tudo para mim. Não o trocaria por nada deste mundo.

A Judite não gostou da ideia e pirou-se sem dizer nada. Dias depois, bateram-me à porta. Era a loira do quinto esquerdo. Estava em lágrimas, a perguntar se vi a cadelinha dela, que por jeitos sumiu pela calada da noite. Convidei-a a vir sentar-se no sofá para animá-la com dois dedos de conversa, ou duas pernas, ou quatro pernas, tanto faz. Bebemos uns licores de umas garrafas que tinha por abrir, que deveriam ser para a altura Páscoa. Como todos os dias vinha cá a casa saber se havia novidades, começou a surgir entre nós uma química, e depois, uma física. 
Sem dar por nada, estávamos a viver juntos há dois meses, a chorar a partida dos nossos animaizinhos de estimação. Numa bela noite, a tomar embalo com umas beijocas, alguém ligou. Atendi.

- Olhe, encontrei o seu cão juntamente com uma cadelinha!

Com a mão a calar o telefone, olhei por uns segundos a minha vida, a loirinha, a cama e a roupa lavada, comer na mesa, o futuro a sorrir como uma criança. A vida está difícil para dois quanto mais para sustentar animaizinhos de estimação atrevidos, capazes de mudar o rumo das coisas. Desliguei o telefone friamente.

- Quem era, amor?
- Ninguém, ninguém, foi engano.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Jaime-Jaime


Quem ainda se lembra do Jaime-Jaime, lembra-se dos campeonatos de boxe ganhos, dos troféus erguidos em frente às televisões, dos avisos sucessivos que ele fazia aos seus adversários ameaçando que lhes partia a cana do nariz. Quem se lembra disto, lembra-se também do quanto era importante ser amigo dele, de ir a uma disco e ser ele quem estava à porta. 
O Jaime-Jaime, uma verdadeira força da natureza, a sua voz de trovão fazia estremecer os corpos e recuar os inimigos. A sua cara cheia de golpes era o seu cartão-de-visita. Olhá-lo de perto era já uma afronta. Mantinha respeito. Quando entrava no café, sabia-se o significado do seu silêncio. Só dava pela certa. E o certo é que ninguém se opunha. O Jaime-Jaime era um tipo à moda antiga, falava tosco, carregava um nadinha nos erres, mas ai daquele que fizesse troça. Os seus músculos pareciam de cimento armado. Apenas no amor é que a coisa não lhe corria por aí além, apesar de ter um coração mole para as raparigas. Os seus triunfos a este nível não lhe traziam grandes vantagens. Se com os homens era, repito, um autêntico feroz, com as mulheres, era um coninhas. Sim, porque elas metiam-lhe medo. Sempre que se aproximava de uma mulher, ainda que fosse para pedir lumes para um cigarro, envergonhava-se de tal forma que, para aumentar mais a esta sua pobreza, chegava até a libertar um xixi pelas perneiras abaixo. E lentamente foi tomado pelo desgosto por não haver uma, pelo menos uma que se pusesse debaixo dele sem ser por interesse, mas sim por amor. Agora só entre nós, dizem os da aldeia que este medo que o Jaime-Jaime tem das mulheres e que o faz fugir tal como um coelho foge do caçador, é por ter o “membro” pequeno. É verdade, sim senhor, quem diria que um todo musculado tivesse carne em falta lá pelo tomatal. Vai daí a sua vergonha. Depois, ó diacho, se isto vem a público, lá se vão os méritos todos do passado, e de feroz passa a ser conhecido pelo Pila-Curta, aquele que tem um lápis que só escreve a letras minúsculas. Anos se passaram e o Jaime-Jaime lá conseguiu arranjar uma a seu jeito, segundo ele, a flor mais virgem das redondezas, trabalhadeira e daquelas que se deita cedo. Uma mocinha de passado negro, infeliz, que mal se lembra dele começa a chorar. Que ninguém lho lembre. Começa a chorar. Dizem que foi por ter provado da erva do diabo. Ou da carne, não se sabe. É uma incógnita o seu choro. Felizmente os dias são os melhores lava-roupas que há por aí. Por outro lado, claro que o Jaime-Jaime sofria em segredo pelo tamanho pequeno do seu lápis que, de certo modo, não lhe dava possibilidades de escrever grande coisa. E havia noites que pedia ao santo milagreiro dos lápis para que, por obra e graça, lhe aumentasse o dito cujo.
Mas o Jaime-Jaime não desistiu, e foi de propósito ao estrangeiro resolver o assunto que tem, neste caso não tem, entre pernas, onde, por jeitos, há lá um médico especialista que faz uns excertos e implantes que são uma categoria. Durante uns meses por lá andou, no estrangeiro, entre consultas diárias, picadas no cu, tirar carne de um lado para pôr no outro, mais umas quantas recaídas, mais noites mal dormidas e por fim umas ligaduras em volta do novo membro descaradamente ampliado. 
O Zeca andava em pulgas para ver o resultado. No entanto, pelo tamanho do enchumaço, a coisa devia estar no ponto certo. Quando chegou o dia verdadeiro de todas as evidências, depois de desenroladas as ligaduras com cuidado analítico, eis o pirilau, um senhor pirilau, mas com uma contrapartida. Era negro, negro escuro como a puta que o pariu!, gritou o Jaime-Jaime furioso e raivoso ao ver o resultado. Teve de se conter com o que tinha e voltar para casa experimentar novas escrituras. Era uma questão de adaptação. 
A sua mulher estava avisada que uma surpresa se iria dar. Ao saber disto, despachou-se logo a perfumar-se, preparou uns licores afrodisíacos num copo só, e esperou deitada na cama, nua debaixo dos lençóis com uma ansiedade trepidante no coração. Apesar dos contras, o herói chegou triunfante, entrando no quarto como se entrasse num ringue. Era o Jaime-Jaime no seu melhor. Começaram com uns pequenos beijos, uns abanões de lado, até que chegou a altura de lhe atacar com a surpresa, o seu novíssimo exemplar XXL. A sua mulher, ao ver a ferramenta, primeiro emocionou-se, depois começou a chorar...


Mundo cão


Estou farto de artistas, poetas de tascos, pintores de rua, mais aqueles gajos estátua que ganham dinheiro sem mexer um corno. 
Detesto os deficientes com o toco da perna à mostra, todos doridos na voz, mais aqueles outros que vendem rifas para as associações de bêbados anónimos e viciados em metadonas. 
Estou farto dos hippies a fazerem pulseirinhas com os nomes das pessoas, dos engraxadores de sapatos que gostam de ouvir piadas secas. Também os fackirs a engolirem um conjunto inteiro de talheres, mais as mulheres que passeiam, dando mostras que não precisam dos homens por saberem diante mão que têm os dedinhos para amar. Sim, todos estes tipos que enchem as ruas e não deixam um metro quadrado sequer para eu vender um par de óculos, que por azar, tenho o fornecedor, que é chinês, à perna para lhe pagar.

O negócio está de rastos e leva-me também nesse arrastão. Ninguém confia em ninguém. Eu próprio tenho vezes que não confio em mim. O problema é que as pessoas que passeiam pelo centro da cidade gostam mais de apreciar os artistas. Estes sim, dão cabo do negócio, e só têm de fazer umas habilidadezinhas para impressionar o freguês. Outro dia chegou mais um caricaturista. Pela pinta, nota-se que sabe-a toda. Em duas horas encheu os bolsos de dinheiro, a desfigurar o rosto das pessoas com um lápis em punho num papel branco que depois elas levam-no enroladinho para mais tarde encaixilharem e babarem-se perante os amigos. E eu ali, com uma centena de óculos de sol estendidos ordenadamente sobre um pano para vender, e ninguém se chega à beira. Lerpo sempre. Com estas e com outras a Lice tem-me dado cabo dos neurónios e, nas entrelinhas, vai-me dizendo, não há dinheirinho, não há colinho! Já pensei em despachá-la ou pô-la a render, mas admito que tenho um fraquinho por ela. A cada dia começo a odiar o mundo, a deitar fogo em cada coisa com os olhos. Sem salário fixo estou empenhado até aos ossos. Não sei como, nem quando, nem onde, nem porquê, nem porque, nem o cacete a quatro. Todos os dias são recheados de metafísicas que me colocam foram dos eixos normais. É um sei lá bem o meu futuro. Assim como o da Lice, que aproveita a água suja para dar de beber às galinhas. No entanto, a cada manhã tenho de enfrentar a vida. E lá vou eu para o largo do Senhor da Cruz, apoiado numa crença que desconheço nem faço contas em conhecer tão cedo.
Como em todas as manhãs, os artistas começam a chegar um por um, até formarem uma cambada e tomarem conta da atenção das pessoas lá com os seus malabarismos de meia tigela. Pelo menos o fackir adoeceu. Parece que engoliu uma espinha. O que é um contra senso. Mas é bem-feita. O cigano que vende prata por ouro também não veio, provavelmente foi dentro. É bem-feita também. Só as romenas, sujas e porcas é que se plantam à porta da igreja, e o gajo das taludas mete-se com todos. 
Depois há o malotinha do cego, que me cansa com a sua concertina e vozinha deslavada. Sem falar no cão, que controla tudo e todos com aquele ar à chefe de família. Penso: mas será que neste largo não existe gente decente? O deficiente lá veio, a caminhar com a sua prótese metida. Senta-se, tira a prótese, expõe o toquinho da perna e coloca a voz em tom de lamúria. O certo é que consegue um bom dinheiro. Enquanto eu, nada vezes nada. E penso na Lice que deve estar em casa a desesperar que eu ganhe algum e com esse algum passe no talho para comprar uns fígados de porco para haver jantar. Não adianta destruir o mundo se com ele vamos também. Ao olhar os cravas, confirmo que a vida é um pão-de-ló que se desfaz na boca. A minha Lice disse que vinha, e veio. Farta-me de me dizer que quer um pilas para criar, mas eu digo-lhe, estás a ver estas minhas duas mãos vazias? Ela não quer saber senão do dinheirinho para haver uma justificativa da existência do frigorífico. Ela sabe da concorrência, destes pedinchões que se metem a roubar os fregueses. O aleijado safa-se, como sempre. Tem bons motivos: meia perna decepada, e um Deus vos abençoe na ponta da língua. Apetece decepar-lhe a outra perna, por tanta dor fingida. A Lice repara em todo o cenário, na cambada que se junta para fazer nenhum, só à cata de beneficência. Não tira os olhos do perneta que, de quando em quando, as moedas caem no cestinho. Ainda por cima, sem impostos. Reparo na Lice. Nunca a vira pensativa. Mas eu sou eu, e a Lice continua a sonhar igual a um touro no meio da arena. Toquei-lhe com o braço, e perguntei-lhe: há azar? Escutou-se um clique. Ah, desculpa, estava a olhar o perneta…olha só como ele ganha muito dinheiro… - Respondeu a Lice, enquanto vampiricamente e com cifrões nas íris olhava as minhas duas lindas pernas…

A minha Maria


Amigos, depois de escrever esta crónica vou directamente para a caminha onde tenho a minha Maria a aquecer os lençóis. Sinceramente, só de pensar que tenho a minha Maria prontinha para as minhas imaginações, está-me a custar no pêlo cada palavra que escrevo, pois cada palavra que aqui escrevo faz-me demorar e, se acaso demorar mais que uma cafeteira ao lume, a minha Maria adormece e não há nada para ninguém. 
Portanto, vou tentar ser breve ao máximo, consciente que compreendereis que a minha imaginação para escrever está nas lonas, fechada para obras, ou, para ser mais preciso, a minha escrita está como de um velho oitenta anos quando fala sobre sexualidade: fala, fala, mas não diz nada.
Amigos, não se admirem se me ausentar desta crónica repentinamente ou se vos deixar aqui pendurados num verso qualquer, onde as reticências farão o melhor que sei. Prometo, no entanto, que na próxima farei o meu melhor, já que, o pior é isto que aqui vêem: uma crónica sem sentido, despudorada, insignificante, palavras sobre um papel tal como uma planta sem terra. Estou aqui mas estou a pensar na minha Maria, que tanto sentido dá à minha vida, volta e meia dá-me a volta ao corpo na cama para ficar por cima, com a sua mão na minha a indicar-me o caminho da felicidade.

Hoje sim, era um daqueles dias que podia falar de futebol, mas oh meus amigos, eu de bolas só percebo de bolas de queijo, e nada mais! E quando a literatura se acaba, fica o desejo a meia haste. No fundo estou aqui a escrever por causa dos cinquenta euros que o jornal me dá e que muita falta me fazem para o que agora não me lembro, ou não quero recordar.
Tenho essa liberdade, de escrever não escrevendo. Fazer de conta que. E tenho amigos que admiram esta minha farsa, por ser dócil e não ter más influências. Dizia, daqui vou directo e literalmente para o colinho da minha Maria. 
Não para lhe catar piolhos ou fazer cóceguinhas nos pés, mas sim para lhe mostrar a luz viva dos meus olhos por debaixo dos lençóis. Se esta noite morrer, já sabeis do que foi: afogado em mim. A minha Maria é igual à Maria de todos os homens. Gosta de jantares românticos em que sejamos nós apagar a conta. Usa tacão alto para mostrar que está crescida. Bebe champanhe em pequenos goles porque a velocidade é inimigo do estômago e do dinheiro. Tenho feito muitos jantares românticos com algumas Marias deste país. E isso tem-me levado a ligar ao director deste jornal para que me adiante algum guito em troco de umas boas crónicas prometidas.

A minha Maria - que não é santa mas cura-me - está ali na porta ao lado, com certeza nua, a desejar que termine esta prosa para lhe dedicar outro tipo de versos, escritos à língua. Pudesse eu abreviar este texto numa só palavra e lucrar tanto como se escrevesse em todos os Homens. Podia ser a palavra amor, sexo ou pátria, tanto faz. O problema é o director do jornal, esse gigante atraente, que só me dá os cinquenta euros quando concluir este texto.
Para mal de mim, na redacção estão a exigir muito, pedem-me que meta sangue nas palavras, rodízios de amor, triangulações de amor. Para bem de mim, os cinquenta euros fazem-me cá um jeitaço danado, dá para ressuscitar pela milésima vez.

E depois a minha Maria que não é Maria que vai com as outras, está ali deitada, a sonhar com hortelãs, a adocicar a pele para que a minha boca fique doce também. Espera-me assim, com os desejos todos reunidos ao centro, a torcer-se para ambos os lados. Bem, tenho de ir. Lamento não ter escrito todos os pormenores de uma vida, mas ainda assim gostaria de sair de cabeça erguida, a haver aqui pelo menos um verso que sirva para letrinha de canção, um sonhar, um pouco de tinta fresca para pintar o tempo. Mas por favor, depois deste texto não me atirem à cara a fraqueza aqui descrita, nem façam troça da minha Maria que, coitada, também ela precisa dos cinquenta euros para se governar. Não é muito nem é pouco. São cinquenta euros a abrir um sorriso. É o preço que a minha Maria leva para que possa dizer que ela é minha e eu sou dela. Pelo menos esta vez, esta noite, porque amanhã é outro dia e eu, cronista insaciável, tenho de ir varrer estradas pelo dia fora. E quando chegar a noite, por esta mesma hora, escreverei à minha Manuela, à Paula, à Teresa, ou então à minha Joaninha do quarteirão mais abaixo, que todas me amam e me querem, pelo módico preço de uma crónica. Não é muito nem é pouco. São cinquenta euros, e é tudo o que peço, para ser feliz por mais ou menos três quartos de hora.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Já não há católicas como havia antigamente

A felicidade é uma coisa linda que habita em nós pecadores. Ser feliz implica ter os tomates bem rijos e um sonho em cada esquina. Mas atenção, se sonhas mais alto que a felicidade, estás literalmente lixado. Falo assim porque já cantei para cima de mil canções. E isso dá-me o direito a trocar os verbos pelos sujeitos ou os sujeitos pelos verbos. Tanto faz, tanto se me deu. À Carolina também. Uma tipa que de mamas são duas mãos cheias. Bastante carecida e com mãozinhas delicadas para bordar paninhos e outras coisas mais que lhe ponham nas mãos. Caiu na minha vida como uma chuva cai na terra sem que olhando para o céu o tempo nada previsse. Foi um momento alto na minha vida. Dois anos a tratar da minha existência como deve ser. Do tipo, assobiar como um canarinho. A crise de valores estava como Deus a deixou: ali, num canto, à espera de dias melhores. Voltei a virar o Cristo para frente, em vez de o ter contra a parede. Havia-lhe dado esse castigo. Mas a Carolina, mulher dada a trocas de experiências, tocou no meu lado mais sentimental, sacando-me da carne e dos ossos o Eu mais profundo, com as suas juras de amor até que a morte nos separe. Tudo nos conformes. Tudo como Deus previra. A Carolina gostava muito de ler em voz alta e eu gostava muito de a ouvir, esperar catolicamente ela terminar a leitura para pôr a escrita em dia. A felicidade, só a cama é que podia contá-la. A Carolina ensinava catequese aos sábados de manhã e tinha um molho de crianças para, entre aspas, dominar. Dizia-lhe que, por mim, havíamos de ter um cento delas. Crianças por todos os lados da casa a darem cabo da neura e da minha pouca honestidade. Mas ela tinha o dom da bondade e do espírito santo. Também cantava no coro e, quando abria as goelas, até o sonho acordava. Voz cristalina como a água a correr. Um talento perdido, mas tudo bem. 
A Carolina não era santa, mas que me levava às nuvens, ai isso levava. Se de dia tinha aquele ar angélico, feita nossa senhora de não sei das quantas, de noite, na companhia deste que vos narra, virava um autêntico furacão, carregadinha de vontades esotéricas. Uma coisa impressionável. Nesse tempo, a minha única missão era dar-lhe assistência.
Mas, o que eu mais gostava mesmo, mesmo, era de me pôr ao sol, até derreter de ócio, e pensar que a felicidade é toda minha! Uma loucura. Um dia, não importa qual o dia, pois o assunto que vos trago é sério, deu-me uma caganeira bem forte. Não se ria. Pois se andasse quinze dias sem se poder sentar, como eu andei, a sua vontade de rir era outra. Tive de ser hospitalizado e a levar injecções nas nalgas que só de me lembrar começa-mas já a doer. Dores idênticas a quem vai parir meia dúzia de filhos pelo mesmo buraco. Ais na boca e no peito. Suores quentes e frios puseram-me a pensar na morte como um condenado à forca. As dores não passavam, nem tão pouco as solturas diminuíam. Às vezes nem me conseguia segurar, no estômago muito menos, e ficava cagadinho de medo só de imaginar que o meu fim estivesse e milímetros. Não havia explicação. Os médicos mandavam-me ir ter com a bruxa. A bruxa, mandava-me ir falar com Deus. Deus, como o costume, a não ralar-se com nada. Com este acontecimento, tinha o presente a ir para o passado. Até à estaca zero. A maldita vida a sorrir-me feita sonça de um ângulo meio obtuso. 
A Carolina a não querer saber de mim, a esquivar-se, e eu a perguntar-lhe onde é que ela meteu a religiosidade. Apenas encolhia os ombros, como se me mandasse meter uma rolha.
Entendi. Como não lhe podia abastecer, pôs-me no olho da rua, bem como as minhas camisas de flanela e os vinis do Manitas de Plata. Dito e feito. Voltei às origens, a viver do que sinto. Sim, viver de sentimentos. Uma coisa por mim inventada. Os meus amigos ficaram felizes ao saberem que voltei para a violência do meu quarto, a andar por aí, de receita médica na mão a mostrar a toda a gente. Eu era o escritor, mas quem deu a volta ao texto foi ela, aquela cabrona da Carolina, a papa hóstia. 
Tantas promessas para nada. Tanto investimento em sexo e vitalidade para nada. Tantas idas a colóquios sobre planeamento familiar e niente, como dizem os italianos. Sem falar no dinheiro gasto em alianças. E eu agora aqui, tão neutro, sem uma janelita para o mundo quanto mais uma porta. Para o bem da minha felicidade, uma lição aprendi. E fiz uma cruz. À próxima que me vier fazer olhinhos, antes de tudo, perguntar-lhe-ei: És católica? Se ela disser que sim, então responderei: Nada feito. Com católicas, nem de borla!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O playboy

As amizades, por vezes, são péssimos investimentos. Tenho dito com franqueza e alguma vaidade que as amizades só fodem um gajo. 
O Lino, por exemplo, é daqueles que nem vai nem deixa ir. É um tipo que fala bem e gesticula sem noção espacial. Gere uma lojinha de informática e gosta de ir até à praia mais a sua prancha de surf, embora a espete ao alto na areia e nem chega sequer a entrar mar adentro. Fica-se pela toalha. É só para dar nas vistas. Importa-lhe isso. Só isso. Gosto dele, da sua típica felicidade. Por vezes, estar com ele é de mijar a rir. Conhece muitos casos, coisas mirabolantes, outras ouviu contar. Depois relata à sua maneira, com mais entusiasmo e alguma pimenta. Usa sempre calças apertadas, à playboy, quase a estrangular os testículos. Mas ele é assim: um bom vivant que por onde passa, nota-se o cheiro de perfuminho atrás das orelhas. Ele diz que é para o caso de alguma lhe vir contar um segredo. Depois ri-se, até perto de um ataque de caganeira. Fazia tempo que não o ouvia, mas outro dia ligou-me, e notei nele um sotaquezinho abrasileirado. Talvez fosse impressão minha, ou talvez tenha finalmente cumprido a promessa de ir ao Amazónias ver as macacas. Não interessa. Interessa é que ele tem acompanhado os meus escritos num jornal cujas páginas são de cor verde e que têm dado que falar, sobretudo pela pouca vergonha que as caracteriza. Mas isto não importa. O que importa é que a voz do Lino entrou-me pela orelha esquerda e alegrou-me. Isso sim, fez-me pensar que a vida é uma merda cheirosa. Disse que precisava de falar comigo, nada de extrema importância, mais para dar aquele abraço. Sim, claro, respondi-lhe, sem nunca perder a atenção numa morena que atravessava a estrada e que por vezes enfiava a ponta do tacão entre paralelos que a fazia desequilibrar. O telefonema até calhou bem, já que o Lino é um tipo que fala sem parêntesis, sem as malditas aspas ou reticências. Diz de caras, e isso é um aspecto positivo para os dias que correm. No café do Villas, pareceu-me bem para um reencontro entre dois ex-combatentes de coisa nenhuma, mas ele preferiu lá na loja dos computadores. Por mim tudo bem, respondi-lhe. Fiz um bocado de tempo numa esplanada a dar consolo às vistinhas e depois fui, feito senhor doutor da improvisação.

Assim que o vi, vi que continua sempre em pé, ar citadino, típico de quem já viu meio mundo por um buraquinho qualquer. Enquanto mexia numas papeladas, dizia-me:

- Ei pá, tenho lido as tuas crónicas, bestiais! E quê, os gajos pagam-te bem?

- Nem por isso…já tive dias melhores. Mas estou a pensar em editar aquela porcaria em livro, falta é arranjar editor.
- Ó Bilinho, sabes que eu conheço muita malta, aqui e acolá, quem sabe um destes dias não te armo para aí uma surpresa.

Tão rápido falávamos das crónicas como de repente o assunto virou para onde jamais pensei que fosse virar.

- Sabes, Bilinho, estou à espera de um carregamento de computadores, da China. Um negócio em grande. Mas há um problemazito…

A palavra problemazito fez comichão no meu “menino”. Há anos que conheço a palavra mas sempre pensei que fosse uma palavra só minha, muito minha. Afinal vejo que é de tantos. Continuou:

- No entanto, estou à rasca em dois mil euros para fazer o negócio. E, sabes, pensei em ti!

Pensar em mim é bom. Acrescenta-me vida à vida que tenho. Mas, caramba, por amor de Deus, todo o mundo sabe que só em remédios para a cabeça gasto uma fortuna. Além do mais, ser cronista de jornal é o pior negócio do mundo - quanto mais escrevo, mais me enterro. Seja como for, quando lhe ia para dizer que não, que à rasca ando eu, a tinir por todos os lados, entrou um fornecedor mais uns clientes na loja - que me pediram autógrafos - a farejarem as últimas novidades tecnológicas. Como demoravam a escolher, pagar e sair, acelerei a conversa num português correcto, até porque tenho uma vida lá fora, dizendo-lhe que nem dois quanto mais dois mil! O fornecedor olhava para nós por olhar, os clientes a pensarem se alguma vez me teriam visto mais gordo.


- Escuta, Bilinho, neste negócio ninguém fica a arder. Além do mais, pensa no futuro, eu e tu, nas Espanhas a “espanhar” os costados.


Não quis saber de mais blá blá blá. Detesto que me façam sonhar. Despedi-me com um xau, até mais ver, a denunciar que, sendo assim, prefiro beijar na boca os inimigos. Fui em direcção à porta, a pensar por que me pesam os olhos neste fim de tarde. Mesmo à saída, o Lino, que nunca perdera a fala e o sorriso, para consolo dos ouvintes, disse-me em tom sobre tom:

- Bilinho, amigo, não te preocupes, vou ver o que posso fazer por ti para editares esse teu livrinho. Não desanimes, pá, continua a escrever, estou contigo, pá, abraços à família, tá!

Se bem me lembro, depois deste fim de tarde, um de nós foi parar ao cemitério.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ai os Homens

Desta vez é que foi a gota de água. Não lhe perdoou nem um milímetro e, antes que a família metesse bedelho, tratou logo de lhe pôr as malas à porta, a esse bandido infiel, que chega a casa com o cheiro de outras. 
Oh! quantas já não teriam sido. O Leonel havia pisado o risco várias vezes, mas desta vez foi do lado de fora, ao que a sua querida esposa, farta de jogos de cintura, fez o que havia de ser feito, porta fora! 
O Leonel quis à sua maneira pôr as coisas a pratos limpos mas era tarde demais para limpezas espirituais ou algo do género, pois uma vez, vá que não vá, mas agora, várias?, nem que venha o diabo pedir clemência, com aquele monte de esterco na sua cama é que não mais. Não é não!
O certo é que, com estas e com outras, a sopa azedou e, «desculpar, só depois de morta. Assim não pode ser, cada um para o seu lado e pronto»
O melhor que a vida tem é que existe sempre pelo menos dois caminhos. As ilusões comem os melhores sonhos e depois, dos pequenos sonhos, ficam as tripas a ver-se. A Rosa não quer o pouco nem ou mais ou menos, quer o certinho direitinho. E, uma vez sozinha, tratou de arranjar outro alguém para lhe aquecer o bife, para quem sabe, talvez um dia casar.
Artur era o seu nome, um rapaz que só tinha olhos para a pesca, que fim-de-semana sim, fim-de-semana não, lá iam os dois, de farnel bem apetrechado, fazer uma grande pescaria. Era bonito vê-los, sorrindo como duas crianças que desconhecem o futuro. E o amor era verbo que andava de boca em boca. Felizes, viviam no sétimo andar da felicidade. Só que o Artur gostava pouco de vergar a mola, e o trabalho só o via de longe. E os dias passava-os em casa, enfiado nas internetes. Como se a vida fosse apenas isso. 
O amor começou a entrar por vias desconhecidas, e a Rosa, embora quisesse salva-lo, não podia ser, não podia ser, e num berro mandou-o de volta para a casa da mãe dele, pois ela que o sustente. 
E assim, outra vez só e a desejar que os homens não sejam todos iguais. Pela vizinhança cochichavam que a Rosa não tem a sorte desejada com os homens, que a sua sina talvez fosse essa, não acertar em porra alguma.

Depois do Artur veio outro, que não andava na noite nem era mandrião mas que pelos jeitos gastava tudo o que ganhava em casinos, e tinha dívidas aqui e acolá, um horror. Também não aguentou que lhe viessem bater à porta para lhe mostrar mais um pagamento em atraso e, em vez do anel prometido, deu-lhe antes com os pés. Foi preciso o primo direito dela, o António, um mocinho que estudou para ser enfermeiro e que tem um coração do tamanho do mundo, apresentar-lhe o Claudinho, amigo de trabalho, com uma honestidade acima da média, de passado limpo e com alegria na voz, para o amor funcionar. Só tinha um senão: fazia o turno da noite alguns dias da semana.
Mas isso era o menos e o amor supera tudo e arranja sempre um tempinho para o que bem entender. 
Bem, o mais importante foi a química estabelecida entre os dois pombinhos que, quem os visse, diziam que foram feitos um para o outro. Sempre tão agarradinhos e com beijocas para dar e vender. Não havia nadinha a apontar. O Claudinho era daqueles que parecia ter sido feito de encomenda, um jackpot.
E a Rosa saía de casa mais contente que a Pipi das Meias Altas, sabendo que ele faz de tudo lá em casa, tem mãos para tudo, desde o passar a roupa a ferro até à culinária, onde faz brilharetes. Ela chegava a casa ao fim da tarde e tinha tudo prontinho na mesa. A felicidade que se conta é bem maior do que aquela que escrevo. Os pensamentos estavam voltados para o lado mais feliz da vida. A vizinhança não tinha que dizer, era um bom homem, sim senhor, que tomara a muitas ter um homem assim como o Claudinho, que ao anoitecer saia de casa para ir trabalhar, chegar de manhãzinha, e mesmo assim, põe tudo em ordem. ao fim da tarde, a Rosa chega do trabalho, recebe-a nos braços com toda a sua delicadeza, fica a fazer horas no colo dela, a contar-lhe as últimas, liga para o António a perguntar se já vem a caminho, pois vão os dois no mesmo carro para poupar no combustível. A Rosa despede-se do seu querido amado com um beijo tão forte que o deixa a sorrir ingénuo e feliz. Depois vai à janela para lhe atirar um chocho. Quer vê-lo, até sair do ângulo de vista. 
Lá em baixo está o António,  fulo, esperou mais de cinco minutos pelo amigo, faz o carro arrancar a todo o gás, pergunta-lhe se a Rosa ainda está à janela, ele diz-lhe que não, pergunta-lhe se tem a certeza, o Claudinho volta a olhar pelo retrovisor e diz-lhe outra vez que não; o frio já não faz tremer, a noite está no ar, as mãos na perna um do outro também, vão pela estrada fora, as estrelas acendem-se uma a uma, e por fim, salvos, encostam o carro e beijam-se calorosamente cheios de saudades.